terça-feira, 5 de maio de 2009

RITOS FÚNEBRES BANTO (2)

RITOS FÚNEBRES BANTO (2)
Continuação da página 1


O MUILA

Quando ocorre uma morte, o cadáver é encostado aos paus da libata, sendo colocada do outro lado uma esteira, para o resguardar, e ali fica durante pelo menos dois dias, não se realizando o funeral sem que se reuna a família que, por vezes, vem de longas distâncias.
Quanto ao funeral, propriamente dito, há a considerar o dos pobres e o dos ricos;
No dos pobres, vai o cadáver a enterrar sem qualquer cerimónia, embrulhado numa manta e amarrado a um pau, para o poderem transportar.
No dos ricos, e como já se referiu, o cadáver demora mais tempo a ser enterrado, para dar tempo a que toda a família se reuna ou, pelo menos, se reuna grande número dos seus membros. Em geral o rico, em vida, escolhe uns bois, normalmente em número de quatro, para as cerimónias do seu funeral. Desses quatro bois, dois são destinados à venda, para, com o seu produto, serem compradas as bebidas, tais como vinho, macau ou outras, e as roupas para o enterro, um outro para ser consumido dois dias depois do funeral e o último para aproveitarem a pele para embrulhar o cadáver, não sendo aproveitada a carne deste.
Para o enterro, o cadáver é embrulhado em duas mantas e três cobertores, sendo então envolto com a pele do boi escolhido para o efeito.
Ao embrulharem o cadáver, os muilas deixam os pés de fora e amarram o couro do boi por cima da cabeça, completando o embrulho com fitas extraídas de cascas de árvores, prendendo-o então a um pau que servirá para o transportar.
Normalmente, escolhem o trajecto para o cortejo fúnebre por forma a passar pelas casas das pessoas de família e para as despedidas. No percurso, em geral descansam uma vez entre a casa do morto e o cemitério, sendo nesse local que o herdeiro, mais tarde, construirá o "Tchoto" - coberto que serve para reuniões e fica ao centro do "eumbo" - onde se realizará a festa do "kuricutila", que adiante se descreverá.
Durante o percurso para o cemitério, vai um homem velho à frente dos que transportam o cadáver, perguntando quem foi o causador da morte, indicando nomes e deitando fora uns pós. É crença que, se o velho acertar no nome do causador da morte, o cadáver se deslocará para a frente, impulsionando os transportadores, dos quais o mais avançado irá embater no velho.
Uma vez no cemitério, pousam o cadáver no chão e abrem a cova. Pronta esta, retiram o pau que serviu para transportar o cadáver e cortam-no em três pedaços, os quais são postos dentro da mesma, por forma a que um sirva de travesseiro, ficando os outros dois um de cada lado. O cadáver é então colocado na cova, de lado e com os pés virados para nascente, após o que cada um dos presentes lança um pouco de terra sobre ele, formulando o seu desejo, que em geral é referente ao espírito do morto. Tapada a cova, colocam sobre a sepultura ramos de espinheiras, para evitar que os animais carnívoros desenterrem o cadáver.
Os Muilas têm o culto dos mortos. Têm-lhes respeito e temem as suas almas. Se, durante o funeral, o adivinhador tiver dito que a morte foi causada por feitiços, ficam com receio de que o morto volte, para fazer mal às pessoas e gados. Este um dos motivos porque promovem festas - em especial a do Kuricutila - destinadas a contentar o morto, por forma a que não volte para fazer mal, dado terem a convicção de que a alma do morto volta sempre, umas vezes para fazer bem e outras para fazer mal, acreditando que volte para fazer mal se, durante a vida, esteve doente e não foi tratado pelo Quimbanda. Para fazer bem e proteger as pessoas da família voltará se, em vida, foi bem tratado enquanto doente. Acreditam ainda que a alma volta em bem para que façam a festa do Kuricutila e, se uma mulher que não tem filhos está doente, para que esta os possa ter, originando a celebração de uma festa, na qual o morto, através da sua alma, indica ao Quimbanda qual o tratamento a fazer.

O BURUNDI
Durante os dias de lamentar, a família experimentada como também os vizinhos vivem em um tipo de paralisia. Tudo o que faz beleza pensa deve ser escondido. As mulheres escondem os colares de marfim deles, as pulseiras fizeram de cobre. Para a morte do rei, os maridos não se deitam mais com as esposas deles e a pessoa separa as vacas dos touros. A família lamentando como também as paradas de vizinhos o trabalho dos campos, o arado. Não é necessário especialmente plantar qualquer coisa.
Vida é ameaçada pela proximidade da morte. As mulheres grávidas tiveram que evitar ver um morto ou conhecer um cortejo funerário. Antes do funeral, a pessoa esfrega uma espécie de manteiga em algumas partes do cadáver (como a testa) enquanto dizendo: "seja nós auspicioso, não nos amaldiçoe, adeus." A pessoa recupera o medo da morte, uma súplica de forma que qualquer coisa de dor não chega depois da morte.
Está na hora do término de lamentar aquele se purifica ao máximo apagar todo o rastro de morte e permitir vida assim para levar. Os membros da família vão cedo para o vale e as pessoas se lavam.
O rebanho de vacas também tem que ir para o vale e tem que adquirir a liberdade dos germes de morte. A pessoa é clareado e besuntada da terra branca (cor favorável). A pessoa leva as louças inteiras e tudo é lavado. A pessoa põe materiais novos e o fogo novo, símbolo de vida é alumiado. A pessoa mais nunca pronunciará o nome do morto. Se um vizinho levar o mesmo nome, ele tem que mudar nome. gucuza, pronunciar o nome de um morto vem de uma intenção malévola. É chamar o infortúnio.

O HIMBA
Os ritos de morte ou funeral é denominado Omu-Koti, enquanto realçando entre todos os eventos sociais do himba, podendo acabar transformando em hecatombes autênticas no caso da morte de um chefe de cidade poderoso. A duração do funerário está com relação à riqueza no gado do defunto, porque expressando a coisa rica é entre os objetivos do funerário que tinha acabado sendo. Para acompanhar o ritmo das canções, você não pode usar o mais ou menos, com exceção de quando o defunto é um otjimbanda cujo funeral que requer de lamentos mais espetaculares. No momento é enterrado ao morto em posição de decúbito supino embrulhada na pele (otjinguma) do boi favorito (ohivirikua) deles. Antigamente o corpo era enterrado em posição sentada com as reuniões de pernas. A distância da cidade e o cemitério (oma-langalo) que pode ser mostrado por algumas estacas de madeira. Nas tumbas são colocadas pedras. O himba não tem flores, por isso eles colocavam mudas de árvores nas tumbas dos antepassados deles. Os chifres dos bois sacrificados na honra deles são assunto a alguma próxima árvore. A carne do gado sagrado não pode ser comida por respeito ao defunto, porque eram animais querido para ele. O gado sagrado é morto no campo e é como se enviasse o espírito destes animais sagrados para a eternidade, junto com o defunto. Se quem morre é um menino ou menina, não se faz funeral em outro lugar e os parentes deles e amigos chorarão dentro das cabanas deles. Ao segundo dia mata o pai um boi não sagrado e todas as pessoas vão comer. Se o menino é muito pequeno ele não é enterrado no cemitério, mas no curral das carnes de vitela, no mesmo centro da cidade e ele não fica lamentando (que consiste para o homem em descobrir o cabelo, enquanto levando isto ao ar sem cruzar. O colar é levado com algumas voltas de menos).
Ao menino é embrulhado em um couro de ovelha (ondikua) na qual a mãe leva ao menino. Quando o pai comunica à mãe da esposa dele que o neto dela morreu, ele paga uma carne de vitela (ondema di ongombe) ao tio da esposa (que é considerado mais que a mãe). Deste modo o eanda de mãe é reforçado. Se quem morre for uma mulher (omukadendu di kuapanyara), o funerário dela acontece próximo à própria casa deles ou próximo à casa do pai dela. Eles sacrificam no campo entre um e quatro bois. Os chifres adornarão a tumba e a carne das cabeças serão comida para afastar as pestes. A cerimônia principal consiste na entrega do ekori do defunto (esfole touca) que o viúvo deveria dar, além de um boi para a sogra dele ou uma irmã se que já não viveu. Os bois da mulher não são disputados porque eles correspondem a herança do filho deles. São colocados os chifres dos bois, sacrificados pelo marido na honra da mulher, próximo à casa do defunto. Os chifres são esfregados com kidé (o pó vermelho com que as mulheres são ungidas). No funeral eles são levados para o cemitério e eles são colocados próximo à tumba delas. Os objetos são pegados pelos familiares inteiros, fora os colares e depois que termina o enterro, o pai da mulher mata um boi e todos participam da comida. Eles vestiam os colares novamente, mas agora eles são colocados alongado, são pendurados no tórax e não são batidos ao pescoço. Se a mulher morresse pela manhã, ela era a enterrada pela tarde, e se ela morresse pela tarde, era enterrada manhã seguinte. Antigamente era esperado que todos os parentes viessem antes do funeral, mas agora isto é feito antes do cadáver entrar em estado de putrefação. A diferença, no caso de um homem morrer, é que o lugar dos objetos colocados para o ritual era próximo ao okuruwo e não na casa. O lugar concreto se chama muvanda, entre a casa grande e o okuruwo. Os bois são sacrificados no otjoto onde eles serão cozidos e comidos. O boi favorito do rebanho sagrado do morto é imolado junto ao corpo que será enterrado embrulhado na pele do boi. No caso do morto ser o chefe de Aldeia cercada, as celebrações do funerário deles podiam alongar durante um mês, tempo durante o qual todos seus parentes e amigos participarão. Para tais rituais você pode acabar sacrificando mais de cinqüenta bois. Para a viúva o luto consiste em levar o colar pendurado com menos volta, tirar as decorações e as pulseiras de seus braços e cortar as decorações das pernas, só deixando um terço de sua longitude na parte central. Também levará os pêlos sujos. Passado entre seis e doze meses volte ao cemitério e mais bois (normalmente dois) são sacrificados. Durante três dias acontece uma festa na qual comem carne em abundância. De acordo com o himba, esta festa são os sinais do luto, para ajudar a fazer o espírito da morta feliz. A festa começa de amanhã entrando adiante em cortejo as mulheres, os homens entre os gados. As crianças estão na cidade. Quando eles chegam ao cemitério eram eles que punham brotos de folhas sobre as tumbas, em favor dos espíritos dos mortos e muitos gritos de felicidade.

O HUMBUNDO
Entre os costumes Humbundo, um dos mais complexos e detalhados, é o ritual da morte e a despedida e encomenda do espírito.
Manda a ética que, quando morre algum membro da tribo, se é encontrado por alguém que não seja parente próximo, a notícia seja dada ao mais próximo dos parentes, à hora de melhor disposição, que é a da refeição. Segue-se à notícia uma cena alucinante, pois mandam os mesmos preceitos éticos que o notificado, em demonstração de dor pública, exagere nas demonstrações de inconformismo.
Um mensageiro vai depois avisar todos os parentes, para que se reúnam na cubata do defunto tão cedo quanto possível, para dar início às cerimônias rituais de despedida do espírito. Nesse meio tempo, as mulheres vão preparando a Kissângwa - bebida obtida com um fermentado de milho ou massambala – que animará os vivos na vigília ao morto. Depois da chegada do último parente, reúnem-se em duas cubatas, homens numa e mulheres na outra, ficando na cubata em que está o morto, os do mesmo sexo.
Durante a noite inteira são entoados cânticos de despedida, que acompanham e alegram a subida do espírito, entremeados por histórias vividas pelo defunto, contadas pelos membros da tribo, à medida que delas se forem lembrando. Os animais que caçou, os bichos que teve, as viagens que efetuou, atitudes em que tenha se destacado. De madrugada tem início o óbito propriamente dito. O Onganga entoa um cântico fúnebre acompanhado pelo som dos batuques em tom contínuo e baixo, e pelo coro dos presentes, num gemido muito baixo, como que longínquo. Após as rezas de encomenda, o corpo enrolado em esteiras, em cortejo, é levado ao local de sepultamento.
No dia seguinte, todos os parentes em luto fechado, vão visitar de novo a campa, levando cada um, um objeto de uso pessoal do morto, para que, caso este, em espírito, sinta necessidade de voltar a usar um dos objetos, não necessite voltar à sanzala. Os objetos estarão em volta e sobre a campa.
O ritual torna-se por vezes bastante demorado, pois alguns parentes podem morar em Kimbos bastante afastados, acontecendo nesses casos e vigília, com o corpo em adiantado estado de decomposição.
Nem estado deteriorado do corpo, nem o mau cheiro inerente, alteram a urgência do ritual; o importante é estarem todos os parentes reunidos, a fim de melhor evidenciar o vácuo que o morto deixa com o seu desaparecimento.

O KIKONGO
Para o povo Muxito, da família Kikongo, a morte de um Soba era acompanhada de uma série de outras mortes, voluntárias , ou pelo menos encaradas com resignação estóica, de pessoas que deveriam acompanha-lo, para que no além túmulo ele pudesse continuar a gozar de determinados privilégios. Pela tradição morriam também a mulher mais nova, o conselheiro mais velho e o mais diligente dos serviçais. Caso o Soba, na agonia da morte, determinasse que queria outros acompanhantes além destes três, a sua vontade seria cumprida sem qualquer contestação. Este costume tradicional, foi dos que as autoridades coloniais mais tiveram dificuldade em combater, pois apesar da vigilância exercida, durante muitos anos a morte do Soba continuou mantendo todos os preceitos tradicionais. Escondiam-se nos lugares mais inacessíveis, para levar o ritual a efeito.
Dos últimos casos em que se teve conhecimento oficial dessa prática, foi no ano de 1926, quando da morte do Soba Mazeze.
Nesse ano, marcharam o Soba Mazeze e respetiva comitiva, para o Posto do Lucano, em visita cordial.
Nesse entretanto, deslocou-se ao Sobado, um sobrinho de Mazeze, Sobeta em território Congolês , que por sua vez ia visitar o tio. Como não o encontrasse, resolveu ir ele também ao Lucano, para lá cumprimentar o Patriarca.
As duas comitivas encontraram-se no caminho, estando já Mazeze de volta, e todos pararam para celebrar. A celebração demorou vários dias, em que foram consumidas expressivas quantidades de cabaças de Marufo ( fermentado de seiva de palmeira ), tanto pelos chefes, como pelos acompanhantes. Dada por finda a celebração, voltaram as diuas comitivas ao Sobado, onde Mazeze chegou já bastante doente. A despeito de todas as tentativas de cura por parte dos Tchimbandas, poucos dias depois o chefe morreu.
A autoridade colonial do Lucano, tendo tido conhecimento dessa morte, e sabedora dos costumes tribais, logo rumou para o Sobado, junto com um pequeno destacamento de Cipaios e Capitas ( forças militarizadas constituídas por homens de outras tribos, de apoio às administrações coloniais portuguesas ), numa tentativa de evitar o morticínio.
Mas o destacamento chegou tarde, várias pessoas já haviam morrido em conseqüência do ritual. Mas as autoridades não conseguiram apurar nada de concreto, pois o povo interrogado, limitava-se a responder que os personagens extras, tinham morrido por haverem tomado o mesmo líquido que o Soba, e não por qualquer outra razão. Como se disse acima, este costume foi dos mais difíceis de combater pelos colonizadores, e nada garante que esteja completamente erradicado, que ainda hoje não se pratique nos mais recondidos e inacessíveis lugares do mato, com a anuência de todos.

O GANGUELA
Entre os Luy, outro ramo do grupo ganguela, era bárbaro o funeral de um Soba.
O Soba, ddepois de morto e de ter passado todos os rituais fúnebres, era colocado na cova em que seria sepultado, junto com todas as pessoas que lhe tivessem sido chegadas em vida.
O sucessor, era investido imediatamente após a morte do chefe, por um dos secúlos do conselho de velhos, que o ungia com a ponta de uma lança, numa investidura muito semelhante à dos cavaleiros na Europa medieval. Terminada a cerimônia do sepultamento do Soba e respectivos acompanhantes, o novo chefe retirava com todo o povo para um novo local escolhido para Kimbo, ficando o antigo local para veneração, onde os velhos em determinadas épocas iam em peregrinação.

O CABINDA
Notemos desde já que ainda nos tempos de hoje lhes custa a aceitar a morte como natural. Para eles alguém a deseja, alguém a provoca, alguém quer mal ao doente ou à família.
Para a «confissão» os parentes juntam-se à roda do enfermo.
Aí, diante de todos, cada um por sua vez, terá de declarar se algum dia disse alguma coisa contra o doente ou se chegou, mesmo só no seu íntimo, a desejar-lhe mal. Não a fazendo, se o doente morrer, atribuirão a morte à não realização da «confissão» ou, se a tiver havido, deitarão as culpas àquele que tendo alguma coisa contra o doente a não declarou e, sobretudo, contra algum parente que não tenha comparecido. O faltoso será tido por ser o verdadeiro culpado, por ser o «comedor» da alma do extinto, o Ndoki.
Em outros tempos, este faltoso seria levado à prova da «faca quente» ou à da nkasa (a do veneno da «casca» - Erythrophloeum Le-Testui, A. Chev.) .
Mas, mesmo hoje, não deixará de ter de apresentar contas e chegará a concluir que a vida não lhe virá a ser muito longa, pois ainda conhecem muitas formas de desforra...
Nos tempos que correm ainda morre mais gente do que se pode calcular vítima destas e doutras desforras. São os naturais quem tal afirma.
Por isso os parentes correm de muito longe para se apresentarem na fiabiziana. Sendo-lhes absolutamente impossível comparecer não deixarão de apresentar, o mais breve possível, as verdadeiras causas da sua ausência.
Apenas alguém expira a sua morte será anunciada pelo pranto das pessoas de família ao qual se junta, como fogo que se atiça, o de toda a gente da aldeia. O berreiro é ensurdecedor.
Se a morte foi repentina ficam como loucos.
Acabado de morrer, era o defunto ou defunta lavada, rapado o cabelo da cabeça e cortavam-se-lhe as unhas o mais rente possível. Depois de bem limpo, vestiam-lhe os melhores panos e era embrulhado em mais ou menos cobertores conforme a dignidade do morto e família (20, 30, 40, 60, 70 e mais... ).
Vestido com o melhor que tiver e com o que foi, sobretudo, de seu gosto - vi mortos de capacete e com óculos escuros! - é colocado na cama ou sobre uma esteira, enquanto não tem o caixão.
Quase sempre, para que se permita ver a pessoa defunta e para que haja espaço suficiente, é tirada uma ou duas das paredes da casa. Não é difícil, uma vez que estas paredes são de papiros.
Mas já se não faz o mesmo nas casas de carácter definitivo.
As mulheres do defunto e as mais pessoas do sexo feminino que pertenciam à família rapavam a cabeça e quase se despiam totalmente. Esfregavam-se com carvão e, numa cantinela lúgubre, chorada, faziam o pranto. O pranto é contínuo. Traçam nele todos os factos de que se lembram da vida do falecido.
Nas aldeias do interior, os homens correm à floresta onde aparelharão, toscamente, as tábuas para o caixão. São quase sempre os homens da família que se encarregam deste trabalho.
Preparado o caixão, sempre no meio do mesmo choro cantado, é envolvido o morto em mais ou menos cobertores, segundo a dignidade deste e riqueza da família. É, depois, encerrado no caixão, que terá sido feito com o comprimento, largura e altura exigidas pelo número de cobertores que o envolvem.
O choro cantado dos da família, sempre contínuo, não significa somente dor - que a há - pela perda da pessoa falecida. Mas é também para afugentar os bandoki para que não venham buscar mais ninguém e para que a alma do defunto fique satisfeita.
Se o morto levar 30 ou 60 cobertores, mesmo finos que sejam, pode imaginar-se o volume e tamanho do caixão, E se este uso e gasto vai diminuindo, não se julgue que passou por completo.
É na morte e, sobretudo, no enterro que se faz ideia do que valia o falecido.
...Cada um dos cobertores que é envolvido nos defuntos levará um valente rasgão, ao meio. É para ninguém ser tentado a violar os caixões e sepulturas, roubando-os. Assim teria acontecido, outrora. Pessoas de família, à medida que vão chegando, oferecem cobertores e esteiras. Na medida em que o caixão o permite e o podiam prever, lá serão encerrados. Doutra sorte, metidos na sepultura. Se nada oferecessem, os da família, seriam interpretados como alegrando-se com a morte do extinto? Parece que sim.
É que também de lá, da outra banda, o morto ainda pode fazer mal aos que cá ficam!...
Exteriormente o caixão será revestido de cobertores ou panos até esconderem toda a madeira.
Com facilidade se reconhece, nos caixões dos cristãos, uma cruz feita do mesmo pano ou cobertor que envolve as tábuas.
Guardam hoje a lei das 24 horas. Passadas elas lá o levam a enterrar. Como em toda a parte, a dignidade do extinto ou a influência da família torna o acompanhamento mais ou menos numeroso.
Quatro homens - às vezes mais - pegam ao caixão. Seguram nas pontas de dois paus suficientemente fortes, colocados por baixo do caixão, um junto à cabeceira e outro para o lado dos pés.
Caixões de criancinhas muitas vezes os vimos serem levados à cabeça do pai.
Em outros tempos já afastados os funerais dos mais nobres revestiam-se de um aparato sem igual. Era verdadeira festa a roçar pela orgia.
Cantar, dançar, comer, beber em honra do morto era a melhor forma de o contentar e de fazer com que não venha fazer mal aos que ficam.
É que, conta e descreve Mons. J. Cuvelier, «quando morria um homem, a alma ficava separada do corpo. Esta separação durava enquanto o cadáver não era enterrado. A alma ficava junto do corpo para ver o que os membros da família e do clã faziam».
(J. Cuvelier, op. cit., pág. 114.)
Por que não era enterrado logo, necessário se tornava guardar e conservar o cadáver.
Para isso, ao centro da casa, abria-se uma cova de perto de dois metros de comprimento, por dois de fundo e um de largura.
A uns 60 centímetros do fundo, eram atravessados uns paus, horizontalmente, a fazerem de grelha. Em cima deles estendia-se um luandu e uma esteira. Aí se depositava o morto embrulhado nos cobertores. Quase à superfície colocava-se uma nova fila de paus, mais um luandu e uma esteira, cobrindo-se tudo com terra até ficar nivelada com o chão da casa.
Fazia-se, então, fogo por cima. Fogo aos pés e até ao peito.
Pelos maiorais da terra eram nomeados dois ou três homens que ficavam encarregados de manter aquele fogo dia e noite.
Eram os Ngulu-Nfumu.
Passados tempos este costume da cova desapareceu. Era o morto, então, colocado numa espécie de cama de pernas altas. O fogo era feito por baixo dessa cama-grade a que chamavam Kialata (pl. Bialata).
Outros usavam suspender o morto, horizontalmente, numa árvore fazendo-lhe o fogo por baixo.
Mas o costume mais conservado foi o da Kialata.
Procuravam defumar, antes aquecer e derreter pela acção do fogo, o morto e não o queimar, Logo que a acção do calor começava a derreter o cadáver, havia o cuidado de, com qualquer lata ou recipiente, recolher essa «banha» e derramá-la novamente sobre a parte superior dos cobertores que envolviam o morto. Nunca faltavam, em qualquer dos casos - cova ou kialata - os Ngulu-Nfumu.
Todos os dias e pelo meio dia um deles pintava com tukula o cobertor superior que envolvia o cadáver.
Este acto era anunciado a toda a aldeia pelo toque do ngongie - espécie de tímbalo de duas bocas.
O bula-ngongie - tocador de ngongie - locava a 1. vez para avisar. A segunda ninguém se poderia mexer do lugar ou posição em que o toque o apanhasse, até terminar a pintadela de tukula anunciada por um 3.1 toque.
Quem se mudasse ou falasse pagava uma multa. Havia para isso um encarregado de vigiar as pessoas. Era o mankaka, espécie de policia.
Depois do toque que anunciava o termo da pintadela voltava-se à vida normal.
Junto do cadáver estavam sempre as mulheres do defunto, as carpideiras e outras. No pranto perpassava toda a vida do morto.
Entretanto a família junta e prepara o que é necessário para o funeral. Enquanto se não realizava, o defunto ficava no «defumeiro». Lá podia ficar semanas, meses e até anos...
O Rei de Kakongo, morto em 1874, só foi enterrado em 1881!...
(Cf. Portugal em África, 1.8 série, ano 1896, pág. 116).
Juntam-se as bebidas, aguardente, vinhos licorosos, vinho comum, vinho de palma, etc., etc., e mais tudo o que vai ser necessário para as refeições de toda a gente no dia ou dias do funeral.
Chegavam a ir ao Ambriz, Luanda e até Benguela comprar as fazendas, bebidas, etc. para o funeral. O dinheiro para tudo isto vinha de parentes e aliados.
São serradas inúmeras tábuas e começa-se a construir o carro monstro que levará o caixão do morto.
De grossos paus faziam-se as rodas para o carro que levaria o caixão e os maiorais. Era ordinariamente de seis rodas, três de cada lado.
Pronto o carro e o mais, marca-se o dia do enterro.
Seria, por certo, no tempo do cacimbo, época em que o vinho é melhor e mais abundante - e todo é pouco! em que as terras estão secas e não haverá chuva a transtornar e dificultar o cortejo fúnebre.
Ê capinada, em linha recta e da largura do carro, toda a distância que vai da casa do morto à cova onde será enterrado.
E os grandes não vão para um cemitério comum. Escolhe-se um lugar especial. Já dissemos atrás que pode ter-se por muito provável que era em nome - do Nkisi-Nsi que se reservavam cemitérios especiais para os grandes chefes.
Organiza-se o cortejo. Os Zindunga, onde os havia, eram convidados e nunca faltavam. Não podiam mesmo faltar. Não comandam, regulam e vigiam o cumprimento das leis em nome do Nkisi-Nsi?
O morto, embrulhado naquela infinidade de cobertores, é metido num caixão, imagine-se o tamanho, e com mais ou menos feitios, segundo a dignidade do falecido. Por isso se diz: Lukata lumatumbi lumatatu: fumu ikanda - Caixão com três proeminências (feitios): caixão de chefe de família (rica, numerosa, poderosa).
A madeira do carro é coberta, totalmente, por cobertores e panos. Colocava-se o caixão no meio do carro, numa espécie de palanquim que tudo dominava.
No carro sentam-se os grandes da terra e os locadores.
Tem espaço para todos eles e ainda fica algum lugar para alguns rapazes novos dançarem.
No dia marcado eram os da terra os primeiros a arrastar o caixão. É puxado por umas quatro cordas, grossas lianas da floresta, levando em cada uma de 8 a 10 homens. Só para arrastar o carro... de 32 a 40 homens. Pode fazer-se ideia do tamanho e peso.
No dia seguinte começava a ser puxado pelos outros e por turnos até ao local onde se faria o enterramento.
Podia levar dois a três dias. Paravam com frequência para comer, beber e dançar por longas horas.
De noite havia sempre danças no local onde se parará o féretro. Todos, mas especialmente as mulheres, apresentavam-se com o melhor que tinham. Havia danças guerreiras, Os que nelas tomavam parte apresentavam-se em atitudes ameaçadoras. Com essas danças guerreiras pretendiam afugentar os espíritos maus, os bandoki.
O caminho aberto para a passagem do féretro chamava-se SAMBI.
As danças guerreiras, SANGA (estas danças passaram para as festas do MPOLO)
O arrastar do caixão, KOKA.
Os tocadores:
Ao meio, em primeiro plano, vão os tocadores de tambor, espécie de bombo - são os Basiki basiku.
Depois vêm os tocadores dos «marfins» (4 ou 6), os Bakama Banfumu. Segue o tocador de ngongie, o Bula Ngongie.
Vêm, em seguida, os tocadores de Katangala, espécie de caixa.
A frente do cortejo vão três bandeiras: uma de pano preto, outra vermelha e a terceira branca. A de preto, a do luto, vai ao meio. A esquerda, abaixo das outras, vai a bandeira vermelha, a da guerra.
A dominar vai a branca, a bandeira da paz.
Entre estas bandeiras e o carro seque toda a gente do povo e os que vieram ao enterro, tudo misturado, cantando e dançando.
Ainda atrás dos porta-bandeiras seguiam dois homens armados de espadas e tendo embrulhado à cinta um pano que deixava uma longa cauda de 2 a 3 metros. Eram os Mankaka, polícias.
Outros Mankaka, armados de espingardas, seguem ao lado do cortejo em atitudes ameaçadoras - ainda para espantar os bandoki e disparando de quando em quando.
Referindo-se a estes enterros no Ngoyo , J. Fernandes dizia: a alta posição do morto é que determinava a grandeza e magnificência das cerimónias que resultavam imponentes. Viam-se filas de tipóias em que eram conduzidos Príncipes e Princesas, titulares e Governadores de diversas terras (Nfumu-Nsi) tudo num deslumbrante conjunto de vestes, as mais variadas em cores e feitios. A ajuntar a tudo isso, ouviam-se os toques de mungi, ndungu-lingama, kula, cornetas, buzinas, mbuebo, baka, apitos, e isto no acompanhamento dos altos cânticos dos cordões de homens que iam puxando o caixão, em cuja varanda iam os que mandavam e dirigiam toda aquela manobra.
Na véspera da chegada do cortejo ao lugar em que o morto será enterrado, começa-se a abrir a cova. Uns dançam enquanto os outros cavam. Mas tanto os que trabalham como os que dançam, de vez em quando, param o trabalho e dança para comer, e beber...
Estão, uns e outros, besuntados com a terra da sepultura e só poderão tomar banho depois do enterro.
Tudo pronto chega o carro. É colocado por cima da cova. Por uma abertura que existe no meio do estrado do carro, é descido o caixão. Cobre-se a sepultura e ali fica o carro a atestar a grandeza do morto. Enterrado este, dança-se, come-se e bebe-se à volta da cova até pela manhã.
Em tempos muito arredados as mulheres do finado eram enterradas vivas na mesma cova. Para lá iam para lhe fazerem companhia e a comida além-túmulo!

«Com o cadáver, diz J. Cuvelier, enterravam mulheres e escravos que na outra vida deviam servir o defunto, levar água, lenha, comida ... »

Não se procedeu, mais ou menos assim, em 1881, quando foi enterrado o Rei de Kakongo? (Cf. Portugal em África -1.a Série-1896).
Não deixa de ter interesse o comparar estes «usos e costumes» de Kakongo e Ngoyo com o que se lê em A Bíblia tinha razão, quando se fala das tumbas Reais de UR.
«... No interior das câmaras tumulares puderam verificar a presença de autênticas juntas de bois: os esqueletos de animais de tracção estavam ainda jungidos aos carros cheios de artísticos utensílios caseiros (o traçado é nosso). Era evidente que todo o séquito do funeral tinha seguido os magnates no caminho da morte, como davam a entender os esqueletos festivamente vestidos e carregados de adornos que os rodeavam. A tumba de Lady SHUB-ad continha vinte cadáveres. Noutras apareceram mais de setenta.
... Nenhum vestígio demonstrava que os homens tivessem morte violenta. Os respectivos séquitos parecem ter seguido os seus defuntos soberanos em caravana festiva, com os bois jungidos aos carros portadores dos tesouros dos defuntos ... »
( Werner Keller, A Bíblia tinha' razão, trad. de Vasco, Mirando, Ed. Livros do Brasil, Lisboa, pág. 32.)
Também entre os Bakongo, Bauoio, Balinge, etc., etc., são deixados, sobre os túmulos, objectos que serviam em vida ao falecido, v. g. bacias, jarros, potes, e até, por vezes, camas de ferro...
Os grandes de Cabinda possuíam, desde o tempo da permuta com os europeus, óptimas coisas que lhes eram oferecidas como prémio ou em paga de escravos fornecidos. Por outro lado, sendo as gentes do litoral do País de Cabinda muito viajadas a bordo de barcos, adquiriam magníficas coisas por onde passavam, especialmente loiça.
Também as compravam nos estabelecimentos comerciais portugueses, ingleses e holandeses.
Essas loiças iam, muitíssimas vezes, parar à sepultura de seus donos agora enterrados. Para lhes servir do outro lado?
Mas, para não servirem aos vivos, desbeiçavam essa loiça ou lhe quebravam as asas ou as furavam.
...diz J. Cuvelier, a morte de um homem apresentava-se aos sobreviventes como uma ameaça. Ele podia vir, conforme se pensava, a uma casa buscar um objecto, e algumas vezes falar e mostrarse. Por isso colocavam sobre as campas, para uso dos mortos: frascos, potes, bacias, garrafas, pratos, Copos...
(J. Cuvelier, op. cit., pág. 114. )
Esta consideração, veneração pelos mortos, misturada não com pouco temor, ainda se manifesta nos dias de hoje pela prática do NUIKINA BAKULU, o dar de beber aos velhos já falecidos.
Para isso levam ao cemitério, sobretudo em dias de grandes festas anuais - Natal, Ano Novo, aniversário do falecimento - bebidas, v. g. aguardente, bagaceira, vinho tinto e até vinho de palma, e derramam-nas nas campas dos seus velhos falecidos.
Fazem ordinariamente um buraco na campa e por ele vazam as bebidas que trouxeram.
É tudo para o morto ou mortos. Eles nada devem beber, os que vão dar de beber aos seus maiores já mortos, do que levam.
...Uma grande parte das pessoas que tomaram parte no funeral voltava à aldeia, ao local onde se dera a morte do que fora a enterrar. E aí, durante a noite e até ao dia seguinte, se entregavam à dança, aos comes e bebes.
Tudo realizado, « ficavam os membros da família com a consciência plena do dever cumprido».
Pode-se imaginar, pois, o quanto sa exigia de gastos para se fazer tal enterro. E compreende-se por isso o tempo que os mortos tinham de ficar no «defumadoiro» até que se juntasse, tudo o que era necessário para o funeral.
Grande parte de toda esta grandeza e gastos, depois da lei das 24 horas para enterro, são feitos na festa do MPOLO ou NZIMBU.
Esta espécie de funerais tanto se fazia a indivíduos do sexo masculino como do feminino, contanto que tivessem posses e fossem grandes da terra.
...As mulheres da aldeia que se juntam em redor do morto, ao mesmo tempo que acompanham o canto lúgubre e chorado, para não perderem todo o tempo, vão descascando amendoim, partindo coconote, migando folhas de mandioca, etc., etc.
As esposas, nos três dias seguintes à morte do marido, dormem na terra nua. Passam o tempo a chorar. Não lavam a cara, mas só os dentes e os olhos.
No dia do enterro do marido, um cunhado ou cunhada rapa-lhe o cabelo da cabeça. Assim devia ficar, sem mais o cortar, até quase ao levantar do luto, um ano depois.
Para que a viuva possa voltar a cortar o cabelo é preciso que a família do marido lhe pague dois panos e uma blusa preta. Se lhe não pagassem teria de ficar sempre sem cortar o cabelo.
É também só depois disto, do corte do cabelo, que será para o fim do luto, que poderá começar a pensar em arranjar outro homem, se quiser. Se procurar marido antes, terá de responder perante a família do marido falecido e não lhe perdoarão facilmente sem pagamento de multa.
Já muito depois de termos escrito o que aí fica sobre mortos e funerais, fomos encontrar em Portugal de Á frica, 1.a Série, 1896, na Chronica das Missões - Missão de Landana, a descrição seguinte:
« No entretanto, fazem-se os últimos serviços ao defunto; tosquiam-lhe a cabeça e limpam-lhe as unhas das mãos e dos pés.
Assim o exigem os costumes. Enterrar alguém sem estas prévias formalidades seria uma grande vergonha para a povoação.
Depois de bem lavado o cadáver, vazam-lhe as entranhas; em seguida, acendendo por debaixo d'elle um fogo brando mas contínuo, que deita um fumo excessivamente espesso, começam a seca-lo como pergaminho. Assim que está suficientemente defumado, cobrem-no de uma camada de terra vermelha e expõem-no ao ar durante alguns dias, ficando ao lado d'elle uma ou duas pessoas com o único fim de enxotar as moscas. Quando o cadáver está completamente seco, envolvem-no numa prodigiosa quantidade de fazendas. Avalia-se a riqueza dos herdeiros pela qualidade dos estofos e o seu afecto pela morto, pela grossura do rolo. Os cadáveres dos grandes chegam a atingir oito ou nove metros de circunferência.
Expõe-se a múmia assim vestida em uma cabana especial, onde fica mais ou menos tempo, conforme a posição social que o finado ocupava.»
Em sinal de luto, em outros clãs, pintam a cara com negro de fumo tirado das panelas ou com a casca queimada, semelhante a cortiça, do kilolo-kintandu - Anonna arenaria.
Havia quem pintasse somente a ponta do nariz. Conhecemos uma mulher, da aldeia de S. João do Lukula, que, dois anos depois da morte do marido, ainda pintava o nariz em sinal de luto.
A gente do clã desta aldeia - basundí - tinha ainda outros usos, como o seguinte: Morrendo o homem, a mulher fazia uma pequena rodilha que amarrava ao fio que trazia à cintura - lukietu.
No dia do enterro enche de água uma pequena cabaça - Kisasava - e toma um pequeno mutete - pequenito cesto - onde coloca a cabaça com água. Acompanha um pouco o féretro quando o morto vai a enterrar; tira a nka-kata, a rodilha, do lukietu e coloca-a por cima do caixão. A cabeça leva o tal mutete com a cabaça. Com uma sacudidela de cabeça - kulumba - atira ao - chão o mutete e a cabacita. Volta-se de costas para o defunto e vai, então, banhar-se.
Logo após o enterro, ou poucos dias depois, e isto ainda em toda a parte, todos os parentes se reúnem para que o pai, mãe, esposa ou marido ou tios, isto é, o mais próximo responsável pelo defunto, diga e prove se sim ou não fez todos os possíveis e procurou todos os meios aconselháveis para evitar a morte.
Em certos clãs, morrendo a mulher, a família desta era obrigada a devolver todo o zimbongo zimakuela, sobretudo se não ficaram filhos e não há cunhada que deseje casar com o viúvo.
Entre noivos ou - comprometidos já com o casamento, falecendo a noiva, a família da rapariga é obrigada a devolver ao rapaz tudo quanto dele recebeu.
Durante um mês, ou ainda mais, de manhã e à noite, a família, sobretudo a parte feminina, pranteava oficialmente o falecido. Guarda-se luto pelo cônjuge falecido ou pelos pais um ano inteiro.
Os homens usam já o fumo no braço e no chapéu ou capacete.
As mulheres usam panos pretos ou bastante escuros, com flores ou pintas pretas e escuras.
Em certas regiões conhece-se se alguma mulher anda de luto vendo que trás o pano a tiracolo e seguro com um nó, dado por cima do ombro esquerdo.
Vimos outras que indicavam andar de luto amarrando em volta da testa uma banda de pano - ntanta mambudi.
A viúva, passado o tempo de luto, no aniversário da morte do marido, veste-se de panos novos e berrantes. Nesse dia de aniversário, o primeiro, faz-se sempre uma festa maior ou menor.
Se a viúva não passou à posse de seu cunhado mais velho, torna-se livre para procurar pretendente ou para seguir a vida de metretriz - ndumba.
Os funerais dos católicos têm, tanto quanto possível, a presença do sacerdote ou, pelo menos, sendo em aldeias distantes, a do catequista da aldeia.
Sequem para o cemitério em grande compostura. Rezam.
Nos enterros presididos pelo sacerdote, mesmo depois de benzida e aspergida a sepultura, não deixavam de apanhar a caldeirinha e enfiar com toda a água dentro da cova...
Depositado o morto na cova, cada um dos assistentes deita, sem excepção, um punhado de terra sobre o caixão. Pudemos ver isto todas as vezes que presidimos a funerais na Missão do Lukula.
Em Olumbali do Distrito de Moçâmedes, Lopes Cardoso escreve também a respeito desses povos: "Colocado o caixão', cada um dos presentes atira um punhado de terra para cima dele, em despedida"
Na Missão de Cabinda, no primeiro aniversário do falecimento de alguém, é raro não haver, por alma do defunto, missa cantada de Réquiem e procissão ao cemitério.
E acaba-se assim o luto nesse dia. Não é, nos tempos de agora, por funerais com carros, cobertores sem número, comidas e bebidas na altura do enterro que se procura mostrar a dignidade e riqueza dos mortos e de suas famílias. É, sim,' pelas festas de MPOLO - de cada vez mais raras-e pelas artísticas, e caras, sepulturas sobre as campas dos grandes senhores. Entre seis a oito contos ficam agora essas sepulturas.
As festas de MPOLO também não ficam baratas, mas certamente que o são muito menos do que as festas dos antigos funerais.

RITOS FÚNEBRES BANTO

RITOS FÚNEBRES BANTO (3)
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KONGO
A atitude dos povos Congoleses que enfrentam a morte é quieta e serena. A pessoa não morre, a pessoa muda de vida. Uma morte não tem nada terrível, embora as demonstrações de lamentar possam parecer excessivas. Os rituais funerário servem para mostrar os sentimentos dolorosos provocados no lado de fora pela morte. O grau social do defunto o confere um tipo de cerimônia funerário, muito particular para o chefe ou o rei tradicional. A morte é tida em segredo até a escolha de seu sucessor. Seu corpo súbito dos rituais especiais que invocam os antepassados a momentos precisos da noite, para lugares excepcionais. Ele é enterrado com muitos ornamentos simbólicos que fazem insinuação à história da comunidade, para a riqueza cultural e para as distinções do indivíduo. As delegações advertidas de uma morte trazem com eles uma contribuição, em natureza ou em dinheiro que eles darão aos homens e as mulheres que são encadernado por matrimônio para a família do extinto Ela será mais importante que o que eles se têm recebidos na hora de uma morte prévia na família deles, isto para devolver o que eles receberam e de forma que a família lamentando está endividado em sua volta. Estas contribuições são necessárias, porque durante o período inteiro dos rituais, a família tem que prover às necessidades de todos os membros das delegações. O corpo do defunto é exposto a seu domicílio durante um dia e os membros de sua família deixam toda a atividade e se encontram ao redor do corpo para lhe devolver uma última homenagem.
Responsabilidade da morte.
O Congolês vai, assim, procurar a razão da morte. Ele se perguntará o que fora de agente realmente poderia provocar a morte. O resultado desta pesquisa quase sempre é com desespero. Então, há um ofensor, um culpado. O banto não procura sua ovelha preta" muito tempo (sem jogo de palavra!) Os acusados podem tentar para se justificar a eles em discussões infinitas, ele pode negar, ele sempre acabará submetendo, aceitar o destino contrário. Ele apoiará a dor infligida, sem última contestação.
Os lamentadores são as mulheres que gemem para o morto. Elas guiam, por palavras, das canções, dos gritos e as lágrimas, as melodias funerário e os gestos de desolação funda a mente do morto para sua última casa. É um ato social sagrado.
Na família lamentando, a pessoa corta seu cabelo ou a pessoa está contente com desfazer o entrança. As mulheres só usam só uma tanga, elevada sobre os peitos, e os homens, uma tanga e uma camisa. Tradicionalmente, a pessoa se cobre a face e os braços de giz branco. O cuidado trazido ao corpo é feito pela família ou os membros da comunidade. O dia seguinte, o corpo é dirigido para sua última casa, para o cemitério.
O defunto é alongado, coberto com peles de animais, em uma maca continuada os ombros de homens se aproxime do defunto. Eles começam a procissão para a tumba, através de passos hesitantes pequenos, embriagado debaixo do peso da aflição. Para três passos para o frente, eles fazem dois para a parte traseira, proeminente assim o testamento do morto para demorar a colocação em terra e seu anexo para seu. O primogênito pronuncia palavras de despedida ao defunto. Cada um lança a terra no corpo coberto de uma pele ou uma folha.
Depois do enterro, a pessoa coloca recipientes de comida e bebe novamente nos frescamente fecharam a tumba. Esta comida e bebidas são judiciosas para ser roubada de noite para satisfazer o defunto por último tenha fome.
Ao retorno, a pessoa lava as mãos, a pessoa raspa a cabeça e a família do defunto se oferece para beber e comer aos convidados. A pessoa administra o inventário de bens então e o primogênito escolhe tudo o que ele quer e a divisão então com sua comunidade.
O culto dos antepassados é constante na África. O indivíduo falecido se junta ao mundo das mentes, um espaço paralelo para o seu sustento. A alma contínua para evoluir, com suas qualidades ou faltas. O importante é que do defunto não é esquecido e que ele se torna um Antepassado. O morto continua, pelo além, se interessar pela vida de sua família e é capaz agir no curso do envolvimento. A família do morto espera beneficiar então deste protecionismo (paternalismo?). O defunto é materializado em estatuárias que eternizam sua memória. As práticas funerário podem durar vários anos.
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KONGO DE ANGOLA (Batsíkama)
Existem dois tipos de morte, consideradas normal e anormal. A primeira é causada por Deus, “Ele próprio que dá vida, e porque não tirá-la?”, conforme pergunta a sabedoria. A segunda é causada por NDOKI, KADYA MPEMBA, MANDINGU, ZUMBI etc. respectivamente feiticeiro, satanás, espíritos voadores notívagos, mortos vivos. Portanto, quando morre uma pessoa procede-se, primeiro, a circulação da informação, que passa de casa para a aldeia nesses termos: “Nzambi vonde muntu”, o que quer dizer “Deus matou uma pessoa”. Esta é a morte normal. Os ritos fúnebres, as exéquias realizam-se de acordo com a idade e a função social do defunto. A informação pode também circular dessa outra forma: “Badidi muntu”, ou seja, “Comeram uma pessoa”, significando que ocorreu uma morte anormal. Assim, a sociedade é em primeiro lugar informada, e depois conscientizada de que está enlutada.
No caso de uma criança, os funerais são simples: lavagem do cadáver, choros e cerimônias dos especialistas no assunto (NGANG’A MVUMBI, NGANGA VUTULA etc.), o enterro e, no fim, os debates entre as quatro famílias do defunto. Isto não leva muitos dias, geralmente dois. No caso de recém-nascido, os pais são submetidos a certos ritos, principalmente a mãe, e muitas vezes a “tabus” (KIJILA ou MBASU).
Se morre um jovem, serão tidas em conta as sociedades secretas e normais pelas quais passou enquanto vivo: NZO’A LONGO, KIKÛMBI, BAKIMBA, KIMPASI etc. Em primeira mão, a notícia circula por toda a aldeia. Seus antigos colegas deverão estar presentes. É uma obrigação para todos, que, em certo momento, são chamados a prestar declarações de acordo com as regras secretas das seitas. Isto acontece comumente no dia do enterro. Quem tiver problemas com o defunto aproveita também para esclarecê-los, a fim de ganhar paz e tranqüilidade, já que o morto passou a ser membro do mundo dos espíritos, e com essa condição poderá facilmente castigá-lo. Choros, enterro, debates e festa são remarcavelmente suplicatórios.
No caso de uma pessoa que, enquanto viva, exercia uma função social, tudo é diferente. Depois da difusão da notícia lúgubre por toda a aldeia, prossegue-se com a embalsamação. O sucessor é submetido a provas e definitivamente eleito. Não se pode fazer o enterro antes de conhecer os candidatos ou o eleito a suceder. Conforme as funções do morto, a sociedade inteira ou uma ínfima parte é convidada a assistir aos funerais. Normalmente, a quantidade de pessoas indica o tamanho da função que o morto teria exercido. Choros, canções, danças, gritos de alegria ou tristeza caracterizam todo esse tempo da preparação do enterro. Uma vez realizado o enterro, volta-se à aldeia, a fim de celebrar a morte com bebidas e comidas abundantes. A um certo momento, a comunidade prossegue com a “mormalização” da aldeia ou do país, ou seja, a sucessão do novo responsável.

TUTCHOKWE
ÓBITO (Extraído de “Os Tutchokwe do Nordeste de Angola de João Vicente Martins)
Só a morte dos velhos é considerada natural, ordenada pelo “Nzambi”. A morte de qualquer outra pessoa é sempre julgada obra de feitiço, de espíritos malignos ou do espírito dos mortos seus antepassados. Pode um indivíduo ser devorado por uma fera; acontece a morte ser causada pela mordedura de uma cobra ou por um raio; sucede a morte ocorrer após grave doença ou subitamente – todos estes casos serão sempre atribuídos a feitiços ou a espíritos. Mas como estes últimos nada pagam, o interesse maior, tanto para a família do falecido como para o adivinhador, é que a morte seja imputada a um membro da comunidade, a quem possam extorquir alguma coisa, já que hoje não podem liquidar os supostos feiticeiros, como faziam antigamente.
À parte alguns que já procuram remédio para os seus males nos hospitais e enfermarias do Estado ou das empresas particulares, nas aldeias, a maioria dos nativos chama o adivinho e toma as suas mézinhas. Por vezes, se a doença é grave, fazem-se “mahamba” em que o “tchimbanda”, secundado pela gente da aldeia, especialmente pela família do doente, ao som das “ngoma” e do “tchinguvu”, cantam preces aos ídolos e espíritos, aos quais imolam galináceos, cabras, ovelhas, bodes ou carneiros, para que o enfermo melhore.
Quando, porém, a doença é de morte e o adivinho-curandeiro-sacerdote vê que é impotente para curar o doente, informa a família que nada mais pode fazer, porque o doente “afwa kulu” (já morreu antes, já está morto).
Verificado o óbito, se a família entender que foi o “Nzambi” que ordenou tal morte, está tudo muito bem; de contrário, o adivinho entrará novamente em acção, a fim de descobrir qual a causa e quem foi que matou o falecido, excepto, no caso de ser chefe da aldeia, da etnia ou tribo, em idade provecta, para quem nunca o “tahi” é chamado a fim de saber quem é que o vitimou.
No caso da família querer saber a razão da morte do defunto, um dos familiares põe um prato ou qualquer outro utensílio no chão, junto da cama do morto, e diz em tom solene:

-“Ku-fwa wa-fwa” (morrer, morreste)
-“Ku-mu tu-ku-taha” (vamos proceder à adivinhação da tua morte)
-“Kanda u-sweka nganga” (Não escondas o feiticeiro)
-“Youze a-ku-loa iena” (aquele que te matou com feitiço)

O referido utensílio, sobre o qual foi feito tal juramento, é guardado a fim de que, depois do enterro do finado, possa entregar-se ao adivinho como penhor de adivinhação.

As cerimónias do enterro e da sepultura variam segundo a idade, o sexo e a categoria social do indivíduo.
Se se trata de uma criança lactante, é enterrada a cerca de um metro de distância, da parte de trás da casa, onde a mãe dormir, para que o espírito volte depressa para o útero daquela que lhe deu o ser e torne a ver a luz dia, dentro de outro corpo que esta gerará. Este é o mais simples dos enterros e não tem qualquer rito especial. Antigamente, todas as crianças mortas eram enterradas junto de uma árvore denominada “mussole” (Randia hispida).
Passados alguns dias, nunca menos de quinze, os pais vão ter com o adivinho para saber a razão da morte do filho. Então, o curandeiro vai com o casal a uma encruzilhada de caminhos, onde faz uma pequena fogueira na qual lança determinadas plantas. Entretanto, os pais da criança falecida, sentados ao pé, recebem o fumo do fogo sagrado, ao mesmo tempo que imploram aos espíritos, aos ídolos e a Nzambi, que tal morte seja afastada de seus corpos e que voltem a conceber, brevemente, outro filho. Só depois desta cerimónia podem ter relações sexuais.
Se o defunto for de idade mais avançada, mas solteiro, os ritos também são poucos; simplesmente, toda a gente da aldeia dormirá ao relento, junto das fogueiras e tomará banho depois do enterro. Aqueles que o sepultaram, depois do banho, um por um, irão cravar os dentes num tubérculo de mandioca que qualquer membro da família colocou no quarto do finado, após a morte deste.
Tratando-se de mulher ou homem casado, já há ritos especiais.
Logo que um dos cônjuges morre, o “tfuriwa”(viúvo ou viúva), segurando a cabeça do morto sobre o seu regaço, chora até que alguém retire o cadáver e lhe diga que deve ir sentar-se à porta da casa. Ali permanecerá, sem comer nem beber, até que o cônjuge morto seja enterrado. Então, o “tfuriwa” será assistido por outra pessoa do mesmo sexo, que alimentará o fogo proveniente de um só tição e no qual lhe é vedado tocar. O tição deverá ser de “muhota” (Psorospermum febrifugum), cuja casca dá uma tinta encarnada que, quando queimada, cheira mal. Este mau cheiro destina-se a afugentar, do cônjuge vivo, o espírito do morto. Para reforçar tal cheiro, são queimados, sobre o fogo do mesmo tição, de vez em quando, alguns ramos de uma planta denominada “lukotche” e resina de “mupafu”.
Imediatamente após a morte de um cônjuge, o outro terá de despojar-se de todas as vestes e adornos, e usar a “mulamba” em sua substituição. A “mulamba” é uma estreita tanga que é posta de maneira a tapar apenas o sexo . Além da “mulamba”, o viúvo ou viúva espeta na carapinha um ramo de “lukotche” para que o espírito do morto se não atreva a importuná-lo. Não poderá dormir enquanto o cadáver não for enterrado, a fim de que não sonhe com o defunto – o que poderia ocasionar-lhe doença perpétua.
Se o cônjuge morto for mulher e pertencer a outra aldeia, logo após o seu falecimento, um parente do viúvo vai avisar a família da defunta, mas sem entrar na aldeia, a fim de que não lhe batam nem o maltratem. O mensageiro leva qualquer utensílio e, ao chegar perto da aldeia natal da defunta, faz uma circunferência no caminho e ali coloca o objecto de que é portador. Em seguida, anuncia com voz forte, o mais alto de que é capaz, a razão da sua vinda, fugindo ou escondendo-se depois, para não ser espancado. Antigamente, podia até ser morto pelos parentes da defunta, se o apanhassem.
Logo que os pais da falecida chegam, acercam-se da casa onde ela está e dizem:

- “Nehe-nu Tcha ku-taria mufu” (Dai a prenda para que possamos ver a morta)

Recebida a primeira prenda, entram em casa e choram a filha até ao dia seguinte; antes do nascer do sol, pedem e é-lhes dada a prenda do enterro, de importância não inferior à primeira.
No momento em que o cadáver é levantado e transpõe a porta da casa, o viúvo ou viúva passa-lhe por baixo. Acompanhado de outra pessoa do seu sexo, de preferência em estado de viuvez, vai, em seguida, tomar banho ao ribeiro mais próximo, a fim de se purificar de tudo o que respeita ao finado.
Depois do banho purificador, o “tfuriwa” regressa à aldeia, onde recebe, das mãos de um seu familiar, uma galinha e uma conta de missanga vermelha enfiada num fio, que simula uma pulseira. Esta é metida no pulso esquerdo. Feito isto, aproxima-se dele um parente do morto, do sexo masculino, empunhando um ramo de arbustos verdes a arder, defuma o “tfuriwa”, ao mesmo tempo que pede ao espírito do falecido que não faça mal e o deixe em paz.
Terminada a prece, o viúvo entrega a galinha e a pulseira que simbolizam a morto, dizendo ao parente supracitado:

-“We-nu mufu wenu” (Tomai o vosso morto)

No enterro propriamente dito, não há qualquer rito. Simplesmente, só podem acompanhar o préstito, atrás do esquife, pessoas adultas. À frente dos dois homens que levam o cadáver, vai outro homem que, segurando um pauzinho, o atira para a sepultura, quando se encontra a poucos metros desta. E, ao mesmo tempo, diz:

- “Ngantche a-neza-ku (fulano vem aí)

Chegado à sepultura, o finado é enterrado sem mais cerimónias, quer sentado numa cadeira, quer deitado sobre o lado direito. Se for lactante, será enterrado virado para o Oriente, a fim de que o seu espírito volte depressa, tal como o Sol volta todos os dias, e encarne noutro corpo que a mãe há-de gerar. Todas as outras pessoas são enterradas com a cara virada para o Poente, para que o seu espírito atinja rapidamente o reino dos mortos e não venha atormentar os vivos. Só para os chefes de tribo ou de aldeia, o enterramento obedece a determinados requisitos. O morto, quando não é metido num caixão, é embrulhado em panos ou esteiras e apertado de encontro ao catre feito de bordão, que lhe serve de esquife. É sobre tal catre que dormirá o sono eterno.

DA VIÚVA
De acordo com J.V. Martins, ‘’’’Logo que o marido morre, ela deve segurar a cabeça dele no seu regaço e chorar até que alguém retire o cadáver junto dela e lhe diga para se sentar junto da porta da sua palhota ou casa. Ali ficará sem comer nem beber, enquanto o defunto não for enterrado.
Após o enterro do finado não poderá tocar no fogo. Outra pessoa do mesmo sexo a alimenta a ela e à fogueira, defumando-a com o fumo de plantas mal cheirosas e resinas para afugentar dela o espírito do morto. Depois de já se ter despojado de todas as suas vestes e adornos, substitui-os pela mulamba (tanga apertada para apertar apenas as partes pudendas).
Também não deverá dormir enquanto o seu defunto marido não for enterrado.
Quando o cadáver transpõe a porta da palhota e é levado para ser sepultado, a viúva deverá passar por baixo dele. E, enquanto o falecido vai ser enterrado, a viúva deverá ir tomar banho purificador ao ribeiro mais próximo, acompanhada de outra viúva ou de outra mulher, se não houver nenhum elemento feminino em estado de viuvez na povoação.

Depois do banho purificador, a viúva tem direito a regressar à aldeia do finado e a receber de um seu familiar, um galináceo e uma conta de missanga vermelha enfiada num fio e que simula uma pulseira. Esta é-lhe colocada no pulso esquerdo.

Entretanto, aproxima-se dela um parente do falecido, do sexo masculino, empunhando um ramo de arbustos verdes a arder e defuma com ele a viúva, pedindo, ao mesmo tempo, ao espírito do finado que não faça mal à viúva e a deixe em paz.

Terminada esta prece, a viúva entrega o galináceo e a pulseira que simboliza o defunto e diz ao parente deste: recebei o vosso morto. E, feito isto, a viúva fica liberta do defunto marido e do espírito deste perante a família do falecido, ficando, portanto, dissolvido o contrato do casamento.
A viúva tem direito a recolher os produtos cultivados, a cultivar as terras desbravadas, e a todos os cereais e outros armazenados e/ou em sequeiro, assim como ao trem de cozinha e todo o mobiliário existente na sua casa, onde vive com os seus filhos já que, normalmente, o chefe tinha a sua própria casa com diversos quartos, onde poderia dormir com a mulher ou, se preferisse, poderia ir dormir a casa dela. Mas, como o novo chefe muda sempre para uma nova povoação, quer a viúva seja herdada ou não, e mesmo que ela não queira ser herdada, o novo chefe é obrigado a mandar construir nova palhota ou uma nova casa para ela, se não tiver filhos, sobrinhos ou irmãos que lha construam e se quiser ficar na nova aldeia onde vive o novo chefe. De contrário, poderá regressar à aldeia do seu clã. No entanto, só poderá casar depois de passadas três luas, pelo menos, e depois de ter tido relações sexuais com qualquer homem estranho e que desconheça o seu estado de viuvez, à procura de tirar o espírito do seu ex-marido do corpo e ficar liberta dele para sempre. Ela terá de seduzir o homem a quem se entrega de forma a que ele não saiba a razão porque ela o faz. Isto porque esse homem poderá vir a ser atormentado pelo espírito do falecido que estava no corpo da viúva e que dela sai no acto sexual, se ela não deixar que o esperma do homem seduzido penetre na sua vagina. De contrário, não ficará purificada. Logo que o conseguir, tira o cordel que traz à cintura e deixá-lo-á no local do coito. Feito isto, vai imediatamente tomar banho ao ribeiro mais próximo e fica, então, apta a consorciar-se de novo com quem ela e a família quiserem. Tratando-se de pfwo rya ulo (mulher de fora), o contrato de casamento é imediatamente dissolvido e os parentes do finado são obrigados a entregá-la sã e salva na aldeia, clã ou etnia a que ela pertence.’’’’

J.V. Martins refere que ‘’’’logo que um chefe morre, é-lhe retirada a “lukosa” (pulseira de metal), que representa o “lukano”, sendo colocada numa panela de barro, juntamente com “pemba” para que esta última, que simboliza a vida, dê saúde e vida ao sucessor do chefe defunto.

A “lukosa” deve ser tirada por um homem ou, então, pela mulher mais velha da aldeia, onde ficará, até que algum caçador abata qualquer animal selvagem.

Entretanto, para que o futuro chefe possa trazer a “lukosa” para sua casa, terá que regá-la com o sangue de qualquer ave. Feito isto, coloca-a junto dos seus ídolos que estão na “tchipanga”, perto da casa, na nova aldeia.
O falecido chefe nunca é enterrado senão passados pelo menos três dias depois da sua morte, para que toda a gente da aldeia possa assistir e chorar o óbito.
Além da “lukosa”, os chefes podem usar outros distintivos que simbolizam a sua dignidade como o “tchimba” (medalha feita de osso, de marfim ou imitações destas feitas em porcelana), o “mukuali” (espécie de gládio de duplo gume), suspenso ao pescoço ou ao ombro por uma tira de pele de lontra ou de qualquer outro animal. Esta arma pode tê-la herdado ou ser-lhe oferecida pelo chefe supremo da etnia, no dia da investidura; o gládio simboliza, assim, a transmissão de todos os poderes sobre os territórios governados pelo chefe eleito.
Os chefes lundas exibem ainda os seus gorros ornamentados com caurins e missangas que o chefe supremo “Mwatianwua” lhes oferece, em troca dos “milambos” (tributos) ou de qualquer serviço prestado.’’’’

FIM DO LUTO
Acabada a última cerimónia do óbito, a viúva está livre e pode ir para a sua aldeia. Simplesmente só poderá casar novamente passadas pelo menos três luas e depois de se ter entregue a qualquer homem estranho que desconheça o seu estado. De contrário, não o conseguirá convencer, porque nenhum homem quererá ser, dali em diante, atormentado pelo espírito do morto, de que a viúva se julga possuída. Esse espírito, segundo crêem, poderá causar-lhe uma doença grave ou, mesmo, fatal.
A “tchisela” é, geralmente, um dos melhores locais para, em noites sem lua, a viúva conseguir seduzir e entregar-se a qualquer estranho, não no recinto, mas no mato. Se, por acaso, não houver “tchisela”, nos tempos mais próximos, então a viúva frequentará os caminhos, ou irá visitar uns parentes em aldeia distante, a fim de conseguir libertar-se do espírito do morto.
Rito semelhante é imposto ao viúvo, que, de igual forma, terá de seduzir uma desconhecida e com ela manter relações uma única vez; após isto poderá casar novamente ou continuar a manter relações sexuais com as suas outras mulheres se for polígamo.
Tratando-se de um viúvo, ao regressar do banho purificador, vai sentar-se perto da casa de onde saiu a morta, enquanto os sogros ou qualquer pessoa da família da defunta se lhe dirige e lhe pede:

- “Pé polo ya ku tató nyi naye” (Dá-nos uma prenda para o pai e para a mãe da morta)
- “Pé tcha ku kwata ku mutwe” (Dá-nos uma prenda por pegarmos na cabeça da morta)

Recebidas estas duas prendas, pedem em seguida:

- “Neha pembe wa Tchanda ou Thanda” (Traz a cabra para os que dormiram na rua durante o óbito)
- “Neha pembe wa ku tetela mbonzo” (Traz a cabra, para te desmanchar a palhota).

No caso do viúvo não possuir gado caprino, poderia dar dinheiro em substituição. Todos estes pagamentos eram satisfeitos, não pelo viúvo, mas por um seu familiar, posto que toda a família é sempre solidária, tanto nos lucros como nas dívidas de qualquer dos seus membros.
Recebidas todas estas prendas, a família da morta destrói a palhota do casal e põe fora da aldeia todos os materiais que a constituíam, lançando-lhes fogo.
Feito isto, a família da defunta, antes de se ir embora, pede ainda:

- “Neha tcha ku-zundula muchiku” (Traz a prenda para levar o espólio da morta).

Esta é a prenda mais pesada. Antigamente, o viúvo pagava um escravo ou uma escrava; antes de 1975 pagava, pelo menos, uma cabra, uma espingarda de pederneira ou quinhentos escudos.
Recebidas as prendas atrás referidas, um familiar da falecida pega numa “nenga” (planta herbácea limbada e cortante) e, com ela, simulando uma faca, corta ao viúvo uma pequenina madeixa de cabelo junto à testa, sem o que jamais ele poderia cortar o cabelo.
Terminado este ritual, os sogros ou família destes determinam qual a importância que o viúvo terá que pagar-lhes, pela morte da filha. Antigamente, esta dívida era saldada com dois escravos. Antes de 1975, porém, nunca era menos de dois mil escudos, seu equivalente em animais domésticos ou quaisquer outros artigos. Mas se o viúvo e sua família tiverem posses, esta importância pode ser elevada para o dobro, triplo ou quádruplo, e será liquidada sem qualquer queixume nem rebuço, pois que, ao contrário, os sogros poderão fazer-lhe feitiço e matá-lo.
Se o viúvo ou os parentes podem, a importância exigida pela família da falecida é imediatamente paga; de contrário, ser-lhe-ia paga em prestações que, por vezes, se prolongava por anos e anos. Logo que saldar tal dívida procederá à cerimónia da entrega da morta, simulada por um galo e por uma conta de missanga vermelha.
O viúvo só paga a mulher se ela for estranha à família. No caso de ser prima ou parente, nada pagará. E, muito embora se observem os mesmos ritos, as prendas eram substituídas, simbolicamente, por pauzinhos.

PESQUISADO, TRADUZIDO ADAPTADO POR:
Jitu Mungongo (Sergio Santos)

Ribeiro, Carolina da Silva - A Beleza na Morte... Há Beleza na Morte? ou Como Mia Couto concede leveza ao sofrimento - Cátedra Jorge Sena para Estudos Literários Luso-Afro-Brasileiro

Arosio, Ernesto - O Homem e o Além - Revista "MUNDO e MISSÃO"
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Junod, Henrique (1974) - Usos e Costumes dos Bantos (Tomo I); 2ª Edição, Imprensa Nacional de Moçambique - Lourenço Marques

Makarius, Laura Levi (1974) - Le Sacrè et la Violation des Interdits Cap IV

WILSON-HAFFENDEN, J. R. (1927-1928) : « Ethnological Notes on the Kwottos of Toto (Panda) District, Keffi Division, Benue Province, Northern Nigeria », Journal of the African Society 26

ROSCOE, J. (1923 b) : The Banyankole. Cambridge : Univ. Press.

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Labrecque, Edouard – (1934) Eliefs and religious practices of the Bemba and neighboring tribs
Edited By Language Centre Ilondola - Lubushi

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MARTINS, P. JOAQUIM – Cabindas – História, Crença, Usos e Costumes
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Martins, João Vicente - Os Tutchokwe do Nordeste de Angola
http://www.culturalunda-tchokwe.com

segunda-feira, 23 de março de 2009

O PODER DO ESQUERDO

O PODER DO ESQUERDO

Científicamente, o cérebro é divido em 2 hemisférios. Cada um dos hemisférios controla os movimentos da parte oposta do corpo. Os movimentos que fazemos com a mão esquerda, pé esquerdo e olho esquerdo são inteiramente controlados pelo hemisfério direito do cérebro.
O poder das mãos está ligado ao cérebro – pensamento/intenção, e ao coração – sentimento/amor. Portanto, as mãos podem abençoar e curar.
Naturalmente que a intenção de nossos pensamentos e sentimentos é que modera as vibrações que são irradiadas através da imposição das mãos, sobre nós mesmos ou sobre os outros.
Sabemos que a base do Universo é sustentada pelas polaridades: Yin e Yang*.
As mãos são antenas vivas, sendo ativadas pelas polaridades.
A palma da mão direita é Yang, estimulando e promovendo a força e o encorajamento. A palma da mão esquerda é Yin e tem a capacidade de acalmar as dores. E ambas as mãos produzem esses efeitos combinados sobre uma pessoa ou em nós mesmos.
Os antigos gregos e romanos consideravam o lado esquerdo inferior e profano, e nos tempos medievais, o uso da mão esquerda era associado com feitiçaria (pessoas morreram nas fogueiras da Inquisição por serem canhotas).
Na Nova Zelândia, o lado esquerdo é dedicado a demônios e ao diabo. Os muçulmanos acreditam que Alá fala às pessoas na orelha direita, e o diabo na esquerda. Na época medieval, o diabo sempre era representado com a mão esquerda estendida. Entre os índios americanos, a mão direita representa coragem e virilidade, e a mão esquerda, morte. Na China vc só pode comer com a mão direita. Na África, a mesma coisa, direito é bom, esquerdo é mau. Em alguns países, uma esposa nunca deve tocar seu marido no rosto com a mão esquerda.
Superstições sempre relacionam a esquerda com coisas ruins, infelicidade, azar, maldição, venenoso, satânico. E o direito com o que é bom e puro. É uma forma de fobia. No passado, como a mão direita sempre foi a mão dominante, a esquerda era usada para a higiene depois da defecação. Por isso, ninguém levava comida à boca com a mão esquerda, e algumas culturas até hoje consideram ofensivo cumprimentar alguém com a mão esquerda. Até mesmo entre os gaúchos, passar a cuia de chimarrão com a mão esquerda é ofensa. Entre os árabes, qualquer texto santo só pode ser tocado com a mão direita. Mães do mundo inteiro, desde cedo amarrariam as mãos esquerdas de seus bebês para os fazer destros. Quantas personalidades foram abortadas por causa disso?

Stan Gooch demonstra que existe alta proporção de canhotos entre adeptos de ciências ocultas, e atribui isso ao fato de pessoas canhotas possuírem habilidades notáveis para tais ciências, e talento fora do comum para o anti-natural. Isso provoca medo e desconfiança nas pessoas comuns, que motiva-as a isolá-los. Mas pode ser que o modelo causa-efeito esteja ao contrário. Pelo fato de a sociedade judaico-cristã e também a muçulmana, estigmatizarem os canhotos desde sempre, eles naturalmente procurariam outros caminhos, como o do ocultismo.
Pessoas canhotas são talentosas de forma desproporcional: Beethoven, Michelângelo, Rafael, Leonardo da Vinci, Goethe, Nietzsche, Picasso, entre outros eram canhotos. Quantos talentos não foram sufocados com essa fobia pelos canhotos?
Na África, colocar a mão esquerda, com os dedos dobrados dentro da mão direita é um sinal de submissão e de humildade;
Lawal, recorrendo à tradição oral, sobretudo aos versos do Ifá, para afirmar que Ilè é uma divindade feminina e que o lado esquerdo, òsì, representa o escondido, o suave, o poder espiritual feminino, enquanto o lado direito, òtun, representa a força física masculina, a rigidez (cf. um confronto entre essas duas concepções em Salum 1999: 168-170). Por isso, a mão esquerda é metaforicamente conhecida entre os iorubás como a "mão da paz" ou a "mão do segredo".32 Com esses novos dados, ele conclui que, na iconografia ògbóni, o lado esquerdo representa o feminino e o laço entre mãe e filho - e entre os "filhos da mesma mãe" (Omo Ìyá), como os membros Ògbóni costumeiramente se denominam.
A preponderância do lado esquerdo (òsì) sobre o lado direito (òtún) está representada no gestual típico Ògbóni que coloca a mão esquerda sobre a direita com os punhos cerrados e o polegar escondido. Eles saúdam Ilè fazendo esse gestual três vezes na altura do abdome, enquanto dizem uma saudação (Morton-Williams 1960: 372). Os iniciados também se cumprimentam com a mão esquerda e se movem para a esquerda enquanto dançam ao som das batidas dos àgbá (tambores) dentro do templo ou santuário ilédì (Lawal 1995: 43). as figuras masculinas seguram dois tipos de objetos; um é relacionado ao gênero masculino - um facão ou um porrete - que fica na mão direita (o lado direito é masculino para os iorubás); o outro tipo é relacionado ao gênero feminino - uma cabaça com alça ou uma espécie de bornal -, que fica na mão esquerda (lado tido como feminino);
Claude Lévi-Strauss escreveu que a oposição binária é aplicada ao parentesco, aos mitos, etc. Os símbolos não só têm sentido em função do que representam, como também estão interligados como pares que se opõem entre si (como o sol e a lua, acima e abaixo, masculino e feminino, direita e esquerda, molhado e seco).
-A dicotomia é uma característica universal da mente humana.
-O significado dos símbolos pode ser analisado através do exame dos pares simbólicos, porque formam um código muito semelhante ao da linguagem.
Etimologicamente, Òsóòsì foi fragmentado e foi traduzido por alguns para significar mão esquerda literalmente " feiticeiro " ÒSÓ-ÒSÍ. Ele é notado ser um grande mágico, com medicinas potentes feitas das folhas da floresta. O funcionamento com a esquerda ou mão esquerda alude aos poderes das bruxas, magia com negativo ou conotações malignas. Entre os yorubás, na dinastia de Oió, se fala sobre o terceiro Alafim, Segundo as tradições orais, este soberano tirânico teria sido destronado e enforcado na floresta. Uma tempestade se teria abatido sobre a cidade de Oió, manifestando a cólera e a vingança de Xangô, vingança simbolizada no trovão e no raio. Desde então, ele se tomou o orixá dos raios, trovões e tempestades. Nas cerimônias que lhe são oferecidas, os sacerdotes portam na mão esquerda uma cabaça e na outra, o bastão com uma figura feminina penteada com a imagem do "duplo machado", emblema de Xangô. Esse remete tanto às pedras de raios lançadas pelo deus durante as chuvaradas, quanto à pedra neolítica que os camponeses teriam encontrado nos campos e interpretado como um presente seu.
Este mesmo conceito se reproduz de certa forma no uso na mão esquerda do abebe, emblema que faz parte do seus paramentos, e que é também característico das ia Agbá, as mães ancestrais.
Os babalawos são tanto adivinhos quanto sacerdotes do Ifa, o Deus da adivinhação. Um babalawo consulta o Ifa através da manipulação de 16 nozes de palmeira, conhecidas como Ikin, com as quais formam uma mão cheia, e tentam pegá-las em sua mão direita. Se uma noz resta em sua mão esquerda, ele faz uma marca dupla (II) no pó de madeira, (conhecido como Iye-irosun) salpicado sobre seu tabuleiro de adivinhação, conhecido como Opon-Ifa. Se duas nozes restam, ele faz uma marca simples (I). Quatro de tais marcas feitas em uma coluna vertical constitui uma metade de uma figura, e cada metade tem 16 formas possíveis
Este mesmo conceito se reproduz de certa forma no uso na mão esquerda do abebe, emblema que faz parte do seus paramentos, e que é também característico das ia Agbá, as mães ancestrais
Robert Herz, discípulo e colaborador de Durkheim, estudou o simbolismo da mão esquerda e os seus aspectos negativos, associados ao pecado
Lembrando ainda que entre os BALUBAS o poder real o “BULOPWE” o poder real era usado no braço esquerdo, assim como entre os LUNDAS a rainha LWEJI usava o “LUKANO” (Pulseira/Símbolo do poder real) no braço esquerdo. Logo conclui-se que o lado esquerdo, a mão esquerda, são dotados de poderes e segredos, assim seguimos nosso tópico com a pergunta inicial.

Mão esquerda pode zelar?

Fiquem em paz
Jitu Mungongo

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

UAFU ZA-KUIZA

UAFU ZÁ-KUÍZA
(o vai e vem da morte).


Para o povo Bantu a alma faz dupla com o homem, um ser com kilunji (inteligência) que encarna no ku mukutu (corpo) .

O corpo nasce, morre e apodrece, enquanto a inteligência deixa o corpo no momento de expirar, é o muikua (o hálito quente, a vida, a alma).

O muikua ao deixar o corpo, vai direto para o criador que está na SANZALA KASEMBE DIÁ NZAMBI (Aldeia ou Reino Encantado de Deus).

Tratando-se de muikua de criança, este será devolvido por NZAMBI, porque para o Bantu, somente reencarnam espíritos de infantes e em pessoas da família.

As crianças quando morrem são enterradas com a face voltada para o Oriente, para que o Sol que nasce todos os dias traga a sua alma de volta o mais rápido possível. Quanto aos adultos, são enterrados com a face voltada para o poente (reino dos mortos), para que cheguem mais rápido em SANZALA KASEMBE DIÁ NZAMBI, onde são recebidos pelo Criador.

Só ficam em Sanzala Kasembe Diá Nzambi os que têm muxima puena, (bom coração) qualquer que tenha sido a sua condição em vida. Não entram em Sanzala Kasembe Diá Nzambi os que têm muxima uaíba (mau coração). Ex.: suicidas, assassinos, etc. Estes, serão devolvidos e transformados em espíritos malignos. Alguns serão condenados, uma vez nascidos, à reencarnar em qualquer animal irracional. Alguns não se conformam e ingressam na sociedade (DIANDA) de UAFU ZÁ-KUÍZA.

Nesta sociedade os Uafu zá-kuíza ou UFUNJE fazem um pacto com MULUNJI MUJIMU (ventre ruim) de provocarem a morte das crianças em que encarnarem, ou seja, provocando seus próprios abortos, transformando o ventre dessas mulheres em ventre ruim.
Esses espíritos escondem-se em MPAKU (buracos nos troncos das árvores, tocas), e quando uma mulher em fase de menstruação passa, eles se infiltram no útero, e no momento da fecundação alojam-se no embrião.

Depois de muitos abortos o casal procura o 'NGANGA A NGOMBO' (adivinhador), que descobre a presença de Uafu zá-kuíza e encaminha a mulher para o KIMBANDA (feiticeiro), especialista no MUSAXI, (culto específico a Uafu zá-kuíza.)

Para garantir o nascimento, o KIMBANDA MUSAXI e o NGANGA NGOMBO conseguem a concordância do espírito em nascer e continuar vivendo, e através de rituais, descobrem o dia certo em que ele iria morrer, dando-lhe um nome sugestivo e de permanência na Terra. Um nome que seja a negação da morte, que é a principal quebra desta KIJILA(abstenção) , criando um novo pacto, e cortando a ligação com MULUNJI MUJIMU.

O pacto criado é para dar força ao espírito. Quando encarnado ele nascerá como qualquer criança e viverá o período normal.

Perto dos pés da cama onde a mulher dorme será assentado um NKISI TUHEMBA (Nkisi Ancestral) , de aproximadamente 20cm. Este HAMBA (divindade) pertencerá e será herdada pela família, principalmente pela pessoa que nasceu Uafu Zá-Kuíza.

Durante todo o tempo da gravidez a mulher terá amarrado ao corpo um NGOMBO e outras peças, e também um pequeno sino de nome KAGUNGA, no lado esquerdo. Tomará muitos banhos, jogando muita água do banho na barriga e depois passando no corpo, pemba e MUKUNDU (pós sagrados) .

Ao nascer, colocam-se sinos amarrados com pele nos tornozelos, e é feita uma cisão no seu corpo, introduzindo MAFU (pó sagrado) e colocando este mesmo pó dentro do KAPURI, que será colocado no pescoço da criança e usado até a idade em que possa entender as pessoas, até nascer outro irmão.

Este espírito que no passado não chegou a NZAMBI, terá nova chance de ser eleito, de merecer, ou então estará perdido, voltará a encarnar em animais ou será devorado por MUJIMU, que certamente cobrará o pacto não cumprido.

Na época da deportação dos negros africanos para outros continentes, quando engravidavam as negras africanas que viviam subjugadas pelos açoites, sofrendo todos os tipos de torturas físicas e morais, e ainda perseguições, pediam aos seus Jinkisi que seus filhos ainda no ventre não nascessem vivos, para não sofrerem os horrores da escravidão.

Então os seus Pambunjila, Nkisi do mutué ou Kitembu (Tempo - vento encantado) arrebatavam o feto ainda no ventre materno. Essas espécies de vida sob determinado encantamento surgiram com o nome de EBULIN.

PRIMEIRO ENCANTO: EBULIN

Conta-se que a negra INDAIÁ BELEGUIN pariu um filho, e para que não sofresse as dores da escravidão ofereceu-o ao rei do mar, MUCHINO KALUNGA, colocando-o num cesto e depositando-o em suas sagradas águas, e toda a noite a negra ficou cantando e rezando os seus encantos.

Depois, não tendo mais lágrimas, adormeceu no mesmo lugar, de tão exausta. Quando acordou na manhã seguinte deparou com a cesta a seu lado, e dentro dela, em vez de seu filho, achava-se EBULIN, com seu formato de majestoso peixe, possuindo contudo a cabeça e os bracinhos de seu amado filho, sendo o resto do corpo em formato de peixe negro e brilhante.

EBULIN é um erê encantado de KITEMBU POLOKUN, não vira nas matérias, gosta de comer canjica branca cozida, temperada com dendê, peixe de escamas em geral, bebe aguardente com mel e algas marinhas socadas.

Quando fêmea, EBULIN come franga branca e quando macho frango branco, cesto com frutas variadas, que deve ser colocado em rio de águas limpas ou mar.

EBULIN combate todos os tipos de maldade e covardia.

OBS.: Quando se deposita uma obrigação para EBULIN diz-se, entre outras, as seguintes palavras: "Negro está sofrendo, castiga fulano de tal, e povo está precisando, HÓ! EBULIN, HÓ! EBULIN, HÓ! EBULIN.

Quando EBULIN for utilizado deve-se oferecer uma obrigação para KITEMBU POLOKUN, composta de frango arrepiado, (sacrificar), frutas, doburu com coco, canjiquinha amarela cozida com leite de coco e açúcar coberta com coco ralado, batata doce cozida regada com mel, acaçá branco e amarelo, feijão preto cozido (pouco cozido, meio duro tipo salada) com camarão temperado com cebola ralada e dendê, bolas de inhame e bolas de tapioca, bolas de abóbora, etc.

SEGUNDO ENCANTO: IMBUIM
]
IMBUIM é um encantamento de KITEMBU ZALÚ. Este KITEMBU rege os odores fétidos.

IMBUIM tem a aparência e um besouro e tem como moradia o interior de árvores ocas. Quando da metamorfose também tem o formato de um homem de cor negra, baixo, forte, com um só olho no centro da testa, e muito cabeludo.

Este encantamento do Ngola tem medo do sol e da claridade em geral. Se alimenta de carne podre, cachaça, recebendo também oferendas de moedas antigas. O coco azedo é um de seus pratos prediletos.

As cores de IMBUIM são vermelho e preto. Sua vela, quando houver necessidade, deve ser de cor preta.

Este encanto é muito inteligente e perigoso. Gosta de enganar os outros, tornar as pessoas inimigas, trazer esquecimento e amnésia, esconder documentos.
Quando houver necessidade de executar trabalhos com IMBUIM deve-se primeiro fazer sacrifício animal para KITEMBU ZALU, acompanhado de frutas regadas com mel e comidas em geral.

TERCEIRO ENCANTO: ISSASSERIN

É uma borboleta negra, encanto de KITEMBU APOKAN, Tempo este que rege a noite, principalmente nos domínios de Katende.

Quando ocorre a metamorfose ISSASSERIN tem o formato de uma menina de pele de cor negra, de aproximadamente 70 cm, com 2 asas alongadas. Encontra-se normalmente sentada em árvores frondosas, em noites de lua cheia.

Segundo relatos de antigos moquetões africanos, legítimos de Angola, ISSASSERIN adora a lua cheia como se fosse sua própria mãe.

Este encanto gosta de fazer travessuras com pessoas que gostam de andar na mata à noite. Uma de suas traquinagens é a de fazer crianças se perderem.

Se ISSASSERIN em forma de borboleta pousar sobre um recém-nascido, esta fatalmente morrerá.

Nas noites de lua cheia pode-se ouvir à distância o choro triste de ISSASSERIN.

Este encanto gosta de flores do campo em geral, espelho, pente, perfumes, frutas não cítricas com mel.
Dizem as evidências que um pedido feito a ISSASSERIM, quando bem efetuado, é fatal na concepção da palavra. Sua atuação estende-se pelas matas, rios, céu e terra.

Resolve com impressionante rapidez quase todos os problemas que lhe são apresentados.

QUARTO ENCANTO: APAN

APAN, mulher da cintura para baixo e uma ave da cintura para cima, é um encanto de KITEMBU OSSIN, um Tempo ligado à procriação animal, segundo explicações do africano Tata Kobussú, da Raiz de Zumbá, do bairro da Liberdade, Estado da Bahia, ainda na época da escravidão.

Lenda de APAN:

Segundo mitos, APAN foi mulher leviana, que copulou com muitos homens e alguns encantamentos, sendo que isso lhe dava prazer e a divertia muito.

Por seu comportamento foi amaldiçoada por Lemba, que lhe disse a seguinte sentença: "POQUI GILÁ MONPÁ " que quer dizer: Eu lhe condeno a ser um animal.

Devido a essa maldição APAN carregou em seu ventre todas as espécies animais, parindo-as e povoando dessa forma toda a terra. Envergonhada com sua maldição APAN habita as ilhas mortas, escondendo assim sua própria vergonha.

Em suas oferendas APAN aceita somente bichos machos e assim mesmo, da cintura para baixo, com os respectivos axés. Por exemplo: se lhe oferecer um galo, sacrifica-o e oferece-se a menga, o peito, as patas e o rabo, devendo os animais sacrificados ser brancos, como prova de purificação.

O encanto de APAN abrange um vasto domínio, podendo fazer tanto o bem como o mal, com a mesma força, intensidade e rapidez.

APAN é um encantamento responsável pela vida animal, porém atua magnificamente nos seres humanos.

O termo e o conceito banto de UAFU Za-KUÍZA totalmente desconhecidos pelos adeptos do Angola Kongo,pode ser literalmente traduzidos como o vai e vem da morte,correspondendo com algumas diferenças dos abiku dos yorubás.

Foram criados inúmeras crendices absurdas à esse respeito, sofrendo uma adaptação calcada no absoluto desconhecimento de sua fundamentação original, sendo comum encontrarmos pessoas que afirmam ser abiku por isso não tendo necessidade de serem raspados, catulados e pintados,e se considerando iniciados ou muzenzas, com afirmações de absoluta certeza oferecendo desta maneira a sua real ignorância ao assunto a que afirmo!

Mesmo superficialmente para ludibriar, tirar proveito de pessoas se envolvem em seu esquema tão bem elaborados para ilustrar a sua ignorância e desonestidade criaram em torno do fenômeno discrepâncias para serem respeitados como portadores do fenômeno, para se auto denominarem muzenzas, mametos e tatetos, justificando a ausência dos sacrifícios em seu mutue.

As circunstancias reais dos que sofrem o problema do UAFU Za-KUIZA, são pessoas que em sua gravidez sofreram a interferência de espíritos que não são de importância com o seu estado, Existe uma série de procedimentos dentro da cultura de nossos reais antepassados que com fundamentos que envolvem até o recolhimento, com fundamentos diferenciados ao utilizado nas feituras de muzenzas, o que se subtende que os tais abiku não podem e não são considerados feitos!

O investimento dado as mães portadoras dos UAFU Za-KUIZA ou seja abiku, tem a única finalidade de salvar a verdadeira realidade da agressão desses espíritos ao feto das grávidas atacadas por esses espíritos,para que eles sejam salvos e tenham uma vida normal e prolongadas com as vontades de Nzambi!

Muito se poderia falar sobre o assunto e o ritual empregado para tal empenho mas, o conteúdo destes fundamentos são por demais longos,e sem necessidade de sua publicação nesse tópico,que tem por finalidade desmascarar aqueles que não passaram pelo sacrifício por se auto intitular um abiku!

Essa pesquisa com a sua total publicação e na íntegra fundamentada, foi nos presenteada pelo professor TATA NLUNDI, históriógrafo e etnógrafo da África Bantu, a quem agradecemos esse tesouro de esclarecimento!

Texto copiado da comunidade “CONVERSA DE ANGOLEIROS”
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=16849174&tid=2505301228182113279

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O IMPÉRIO LUNDA


O IMPÉRIO LUNDA

O chefe Nkond tinha três filhos e duas filhas, das quais a mais nova se chamava Ruwej(Lueji). Ao chegar um dia à aldeia, depois de uma caçada, os filhos varões de Nkond encontram o pai a tecer uma esteira tendo a seu lado uma bacia de água usada para embeber as fibras. Tomando a água, de aspecto leitoso, por vinho de palma, os filhos, sedentos, pedem ao pai que os deixe beber. Nkond recusa dizendo tratar-se de água mas os filhos, que se pensam enganados, reagem violentamente agredindo o pai. Ruwej(Lueji), tomando conhecimento do acontecido, vem imediatamente em seu socorro. Em consequência deste episódio Nkond deserda esses filhos e decide que o símbolo do poder chefal, (o bracelete sagrado RUKAN (Lukano), bracelete de tendões humanos, guardado numa cesta purificada com caulino branco, que é o símbolo máximo do poder ancestral), será transmitido à sua filha Ruwej (Lueji) e não aos seus filhos varões.
Após a morte de Nkond, Ruwej passa a governar com o auxílio dos seus parentes mais próximos. Reina a paz. Um belo dia, contudo, chega às terras da princesa um exímio caçador estrangeiro, vindo, com os seus companheiros, das terras dos vizinhos luba. O caçador, que se apresenta como Cibind Yirung, (Cibinda Ilunga)(filho do 1º rei de Luba, Kalala Ilunga) é convidado por Ruwej(Lueji) a partilhar vinho de palma com os anciãos da aldeia mas, para espanto de todos, o estrangeiro recusa beber em público. A noite cai e Ruwej(Lueji), já apaixonada pelo jovem e belo caçador luba, convida-o para sua casa. E assim, não obstante a animosidade dos parentes de Ruwej para com Cibind Yirung (Cibinda Ilunga), os dois não tardam a casar. Durante uns tempos a população vive em harmonia. Contudo, um dia, a quando do seu período menstrual, Ruwej (Lueji) decide doar o bracelete do poder a Cibind Yirung (cibinda Ilunga). Os irmãos e primos da princesa revoltam-se com esta decisão e, não se submetendo ao poder nas mãos de um estrangeiro, abandonam Ruwej e as suas terras, provocando um movimento migratório do qual resultaria a formação de novos estados.
Como Ruwej(Lueji) não fosse capaz de procriar, (era estéril) Cibind Yirung (Cibinda Ilunga) contrai outro matrimónio com uma parente da princesa, de nome Kamong (Kamungua). Desta segunda união nasce um único filho, Yaav, o qual receberia o bracelete do poder e o título de Mwant Yaav, fundando assim a realeza ruwund.
Fonte: Comunicação apresentada na Universidade do Minho em junho de 1998, no âmbito da 1ª jornada de antropologia intitulada “Modernidades, Etinicidades, Identidades
Manuela Palmeirim – Universidade de MInho
Identidade e heróis civilizadores: “I’Empire lunda e os aruwund do Congo https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5319/3/Identidade+e+heróis.pdf

Leiam também “As duas faces de Ruwej” por Manuela Palmeirim
https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5353/3/As+duas+faces+de+Ruwej.pdf

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O MITO JINGONGO


O MITO JINGONGO

Jingongo são os gêmeos para os bantos e de um grupo etnico para outro, os sentimentos alcançam extremos, alguns juram adoração sem limites, calculando que elas são o fruto de uma benção, outros os rejeitarão, enquanto temendo seus poderes destrutivos.
A África nos oferece muitos exemplos da situação e o tratamento dos gêmeos. Um etnógrafo escreveu que o gesto para elevar dois dedos da mão direita na forma de V, feito ao endereço de uma mulher, era uma maldição silenciosa, porque era equivalente a desejo que gerava alguns gêmeos. Este destino era redobrado ao ponto que a mulher era tão amaldiçoada que perdia a razão às vezes. As crianças eram mortas ao nascimento e os corpos postos em recipientes em terra, e era enterrada longe na floresta. Se a mãe não fosse morta com eles, ela era exilada na floresta onde ela só teria que morrer de fome ou se suicidar. (de Cardi, 1899, p. 57).
As mães de gêmeos permaneciam sujas para o resto da vida delas. O que evitava risco de morte, para o marido e para as pessoas do grupo deles. Para o melhor dos casos eles achavam asilo em lugares de abrigo nas matas, chamada " cidades dos gêmeos" (Leonardo, 1906, p. 460).
Em sua pesquisa sobre os gêmeos em Camarões, Jeffreys escreveu que o Ambeles, deduziam que a sobrevivência das duas crianças causaria a morte do pai. Então o segundo do recém-nascido era sufocado com um punhado de barro e era enterrado ao longe na floresta. Ao Witchus, são salvas as crianças e a mãe é limitada a casa durante três anos. Ela só poderia sair a noite, enquanto segurando o olhar fixo no chão e em particular lhe era proibido olhar para a lua. A desobediência para estas regras requereria calamidades sérias; a ordem das estações seria transtornada e chuva cairiam durante todo o ano (Jeffreys, 1947, p. 191).
Ao Banyamwezis do Tanganyka, um gêmeo ao parto é anunciado por gritos que sinalizam que o trabalho dos campos tem que parar. Alguns rituais solenes acontecerão durante vários dias, enquanto pondo a região inteira em agitação; se eles fossem desconsiderados, as mentes dos gêmeos, talentoso de um poder extraordinário, provocaria tempestades e outras bagunças que saqueariam o território. Quanto aos gêmeos a palavra" morrer" éra proibido e era substituído por outro termo; se eles viessem a morrer que não se chorasse por eles; a pessoa os enterra a noite em uma poça de lama, para as bordas do país (Bosch, 1930, pp. 465-466).
Ao Nyakyusas quando um nascimento em dobro acontecer, o grupo doméstico inteiro está limpo com uma medicina especial para evitar a inchação das pernas e os braços e outras doenças. Os vizinhos, que acontece de comer com os pais dos gêmeos, também eram considerados em perigo e eram limpos da mesma maneira (Wilson, 1951, p. 73).
A tribo para com seus rebanhos, juntavam e submetiam o grupo dos pais a um ataque ritual, enquanto lhes lançando pazada de lama e esterco e pedaços de madeira, enquanto as mulheres elevaram" um lamento espantoso ". Então os ajudantes avançaram um depois que o outro e ofereciam uma concessão, os homens pelo pai e as mulheres pela mãe. Estes os esfregaram o lado esquerdo da testa, o braço esquerdo e o tórax de um pó preparado na cabana da aposentadoria, com uma raiz avermelhada, era necessário que um boi fosse sacrificado (Dannert, 1880, pp. 104, 112). Ao Thongas, o nascimento dos gêmeos era para a mãe uma grande poluição. Lhe mandavam para fora da cabana que era queimado com tudo que o continha dela e a colocavam completamente isolada em um abrigo atrás da aldeia. Para se livrar das impurezas, ela tinha que ter relações sexuais com quatro homens e só estava completamente purificada depois de ter um amante (Junod, 1936, II, pp. 389-390). O Lubas também têm a convicção que os gêmeos se arriscam para se encantar mutuamente, e o mágico dá a estas " crianças de infortúnio" um talismã composto de um pedaço de peixe elétrico ou algum outro animal considerado de má sorte destinado para os proteger contra este perigo (Theeuws, 1960, p. 133, 134, 135 sq.) .
Algumas aldeias parecem tenras para proteger as visitas tanto dos gêmeos e os pais deles. Para Camarões, ao Ndops, só as mulheres que teve filhos gêmeos têm o direito para render livremente por esses que há pouco nasceram: os outros têm que observar algumas regras. não lavar, não olhar para as mulheres que têm as menstruações deles, nem passar diante das casas deles, para evitar doenças (Jeffreys, 1947, p. 192).
Ao Lubas de Congo", quando os gêmeos cresceram suficientemente, eles decidem que a mãe deles tem que ir viajar . Ela não deve cultivar a terra, escreve Burton, põe as pessoas em raiva; não obstante, eles esperam ver essas mães roubar suas comidas necessário para alimentação dos gêmeos. Se a mãe não viajar, os gêmeos ameaçam se suicidar ou lutar entre eles até que a morte segue para um deles ou para todos os dois" (1961, p. 33).
Ao Bambalangs de Camarões, o pai de gêmeos recebe as duas penas vermelhas que normalmente são levadas por um homem que tenha matado um inimigo à briga, ou pelo caçador para tendo reduzido um leopardo (Jeffreys, 1947, p. 192).
É suposto que eles prevêem as invasões hostis e tem o poder de parar a doença de chegar para a aldeia ao Ntems de Camarões, (Jeffreys, 1947, p. 193). Ao Leles do Kasaï, prova o fato para ser o pai de gêmeos, a pessoa diz, a vocação de adivinhador de uma maneira mais decisiva que um sonho ou que foi escolhido pelas mentes. Rituais relativo a caça e fertilidade estão limpos aos adivinhadores gêmeos. A mãe adquire a clarividência: ter gerado alguns gêmeos é a única circunstância que permite as mulheres Lele para alcançar as funções rituais (Douglas, 1959, p. 389; cf. 1963 têm, p. 212). O Ngombes de Congo também lhes nomeiam a clarividência , como também o poder para curar um pouco de doenças de pele somente enquanto passando a mão na parte alcançada (Wolfe, 1961, p. 81).
Os gêmeos são postos freqüentemente em relação com chuva (Junod, 1936, II, p. 394). É suposto que o nascimento (como falhas ou o funeral em um lugar não úmido de crianças mortas antes de ser purificado) causa a seca e provoca ventos ardentes (p. 272). Como o Thongas e Barongas o ritual de chuva que consiste revelando o cadáver de um gêmeo se ele foi enterrado na areia. É a mãe que leva a cabeça da procissão das mulheres ativas para realizar esta tarefa. Às vezes as pessoas ficam contentes com molhar a tumba de um gêmeo (p. 274).
O Ngombes temeria uma chuva que não terminaria de cair mais, se os rituais prescritos para a hora da morte de um gêmeo fossem desconsiderados. (Wolfe, 1961, p. 82).
Outros exemplos revelam a relação que presume existir entre a magia de pavor aos gêmeos e a fertilidade dos campos. Ao Basongas, antes de administrar as épocas de plantio, a pessoa pede aos gêmeos abençoar sementes e a mãe deles tem que semear antes de todos os outros (Roscoe, 1915, p. 235). Ao Thongas, um gêmeo é designado para dirigir a procissão das mulheres ativas para libertar as plantas dos bichos prejudiciais (Junod, 1936, II, p. 394).
Estes dois exemplos ilustram duas várias formas de pensamento mágico. Tudo que é a razão para qual pede à mãe de gêmeos semear antes o outro e para suas crianças abençoar sementes, a idéia que aquele que quer ver a terra florescer que siga o exemplo desta mulher e leve frutas em dobro como ela fez, seria então lá um caso de magia imitativa.
O nascimento de gêmeos entre os Humbes, é sempre sinal de mau presságio, que só pode ser combatido por meio de uma série de rituais de contra efeito.
Mal nascem os gêmeos, é chamado um Kimbanda para fazer a OKUTUNTHA, que consiste na lavagem da testa, nuca, cotovelos, joelhos e planta dos pés de toda a família.
Em seguida constrói-se fora da sanzala uma cubata para onde mãe e filhos são levados, e onde ficarão de quarentena por um largo período, determinado pelo feiticeiro; durante esse tempo, a mãe tem o encargo de, além de cuidar dos filhos, tecer dois pequenos cestos, que mais tarde lhes servirão de pratos.
No dia em que o feiticeiro der por findo o prazo de isolamento, vai logo de manhã avisar a mãe, e quando o sol estiver na vertical, o feiticeiro leva toda a família, pai, mãe e outros filhos além dos gêmeos, para uma clareira no meio do mato, onde o pai haja erguido um estrado. Lá chegados, o pai, a mãe e os gêmeos, sentam-se nus no estrado, para que possam ser lavados com um preparado especial. A lavagem segue uma determinada ordem: Primeiro a mãe, depois o gêmeo que primeiro tenha nascido, depois o pai, e por último o gêmeo que nasceu em segundo lugar.
Só depois deste ritual é que as placentas podem ser enterradas, e a vida tomar um curso normal para a família.
É de notar que, apesar de toda a necessidade de purificação que causa o nascimento de gêmeos, se forem trigêmeos não acontece nada, absolutamente nada, procede-se como se houvesse nascido um só bêbê(Somente entre os Humbe).
Já o nascimento de gêmeos, como foi dito atrás, é encarado com apreensão por toda a família Ambó, e, portanto também pelos Kwanyamas.
Acreditam que o homem, com uma ejaculação só tem capacidade para gerar um filho; e se vem mais de um, é entendido como intervenção dos espíritos que se alojam no útero da mulher em período menstrual e se manifestam em seu período fértil (Ler tópico UAFU ZÁ KUIZA) capaz de trazer má sorte à família e à tribo.
Diferentemente dos Nhaneka Humbe, que só têm preconceitos quanto a dois filhos numa mesma gestação, os Ambos têm-no em relação a mais de um filho por gestação.
Para neutralizar esse mal, tem que se proceder a um ritual de purificação dos recém nascidos e da mãe, cerimônia presidida por um Ondudo -- curandeiro adivinho -- que asperge a todos e ao lugar, inclusive aos visitantes, com um banho de ervas, durante a primeira Lua.
Combatidos os efeitos negativos, tudo o mais decorre normalmente.
Outra tribo que procedia com verdadeiro barbarismo ao nascimento de gêmeos, ou de crianças com qualquer tipo de deficiência física, eram os MUKUBAIS. Os recém nascidos nessas condições, entre os Mukubais, eram abandonados em covas, no mato, onde eram devorados por predadores ou formigas, antes de ocorrer a morte por inanição.
Entre os Lundas, ao contrário da maioria dos povos de Angola, o nascimento de gêmeos é altamente festejado, pois considera-se tal acontecimento, indício de bom presságio.
É fundamental a mais completa imparcialidade, da parte dos familiares, no tratamento para com irmão monozigotos.
Se acontece um deles ter de ser castigado, o outro também é; o que se oferece a um se oferece ao outro, a comida é repartida igual para os dois gêmeos - Anapaza - e até, se por acaso um deles estiver fora do Mussôco, nem por isso deixa de ter o seu lugar à refeição dos pais e irmãos, e de lhe ser servida a sua porção de alimento.
O que estiver viajando, também se servirá em porção dupla.
Mas só nos apercebemos do conceito real em que a maioria tem os gêmeos, quando um deles morre. A morte de um gêmeo é, no ponto de vista de um Lunda, um mal irreparável, acontecimento trágico chorado como nenhum outro, dor que nunca chega a ter resignação. Depois de inúmeras cerimônias fúnebres e rituais feiticistas, a mãe do morto encomenda ao entalhador - Songui - o retrato - Capéria - ou sombra - Tchitchukié - do filho. Essa sombra, a mãe transportará para sempre, debaixo do braço esquerdo, até o gêmeo sobrevivente ser considerado homem.
Depois dele terminar o ritual da circuncisão, a responsabilidade pela figura do morto, passa a ser por conta do irmão.
Ele tem o dever de se fazer acompanhar sempre por esta recordação e trata-la com o maior zelo, contar-lhe das experiências da vida e venera-lo como espírito; nunca acreditam completamente na morte de um ente tão querido.
Um gêmeo a quem tenha morrido o irmão, deverá sempre seguir os pressentimentos que lhe ocorram, pois são tomados como avisos do irmão que, no Éden, goza da companhia de seres omniscientes.
À cerimônia de puberdade de uma menina lunda(Congo) seu pai entra no círculo das mulheres, aponta o dedo para a heroína do banquete e demande: "Os gêmeos são bem? "As mulheres respondem com enfase: "Sim! Sim! Muito bem! " (Turner, 1953, p. 21). Os gêmeos são assimilados a uma menina pubescente. A algumas tribos do Tanganyika, está o pai de gêmeos o único indivíduo de sexo masculino permitiido entrar na cabana onde segura a menina pubescente na hora de sua iniciação (Frazer, 1911-1915, p. 24, mencionando Gouldsbury Sheane, 1911).
A imortalidade vem mostrar a presença deles entre os humanos, é necessário os representar por uma estatueta. Nos deslocamentos, para os campos, para o mercado, para o riacho, a mãe tem que manter nela esta estatueta. Para a casa, na hora da refeição, a pessoa tem que deixar entrar um prato, antes da estatueta, uma parte de comida que a alma das crianças virá comer. Se de aventura as estampas de mãe fique impossibilitada, um membro da linhagem tem que dar para comer a suas crianças que não são realmente morto. A pessoa prepara a este efeito, feijão roxo com muito óleo de palma ", explica em seu local a Sociedade das missões africanas (SMA).
Muitos são os cultos e ritos praticados pelos bantos ao nascimento do Jingongo, Onkila é uma cerimônia-culto de recuperação, originalmente que devolve às mulheres para fertilidade, relativo às crianças nascido de um modo anormal: os gêmeos no primeiro lugar então através de extensão as crianças nascidas pelo assento (ngetshenle), os cercadas pela corda umbilical ou esses que se envolveram na placenta (ngaliomi) :
Os mistérios rondam o estado de gêmeo e o nkita se expressa pelo ritual sólido de plantar uma árvore de banana no lugar onde é enterrado a corda umbilical de um recém-nascido. No nono dia, o tio plantará três árvores de banana no lado direito para cima por criança gêmeas, onde são enterrados as cordas e os ruínas da casa e onde será queimado tudo o que pode ser tocado pelo mesmo na hora do parto. Se uma criança entra para o mundo em uma maneira anormal (pelo assento, os pés, etc.), a pessoa diz nshiele para isto. A coisa terá sido querida por um nkita; e, se ele viver, ele terá uma influência benéfica nas plantações domésticas. O pai deveria realizar um sacrifício no altar dos antepassados ". (Lehuard 1996: 82-83)
Nas tradições, mas também na literatura. Assim, os contos que os põem em fase são numerosos e sempre de realidade. A pessoa acha uma faceta boa ou má destes seres sagrados ou desgraça.
Segundo Ruy Duarte de Carvalho, as yàndá "cativam-se pelas pessoas, velam por elas e pelas águas" (CARVALHO, R.D.,1989, pp. 284-285), manifestando-se, de acordo com as pesquisas feitas por esse antropólogo e poeta angolano, de formas diferentes: "a de lençóis de luz sob as águas, formando feixes de fitas coloridas; a de patos nadando; a de pombos sobrevoando as praias, a de crianças gêmeas brincando, entre muitas outras" (CARVALHO, R.D. apud: SECCO, 2002: 16).
O antropólogo angolano Virgílio Coelho fez um estudo sobre a sociedade luandense, em especial sobre as populações Túmúndòngo - que habitam as ilhas e o platô de Luanda - e os povos de línguas quimbunda. Dentre outros pontos, ele ressalta:
As yàndá são apresentadas como "seres" portadores de luz e de vida, tendo coloração alva, luminosa e um aspecto humano, tanto que, em algumas versões do mito, é descrita com uma longa cabeleira branca à volta do corpo. Relacionada também à fecundidade, a Kyàndà é, geralmente, associada ao nascimento de crianças gêmeas, que possuem faculdades extraordinárias de prever o futuro. Os gêmeos, concebidos como intermediários da kyàndà, quando apresentam algum defeito físico, são portadores, segundo as crenças, de um poder sobrenatural ainda maior. (COELHO, 1997, pp. 127-191).
Pepetela também resgata o mito da criação do mundo quando apresenta Nzàmbí como divindade que se manifesta sob a forma de uma serpente. Na Parábola do cágado velho, a narrativa se inicia apresentando o tempo primordial da formação do mundo e do próprio homem: Suku-Nzambi criou aquele mundo. Aquele e outros, todos os mundos. Suku Nzambi, cansado, se pôs a dormir. E os homens saíram da Grande Mãe Serpente, a que engole a própria cauda. Feti, o primeiro, no Centro, foi gerado pela serpente de água e da água saiu. Nambalisita, no sul, do ovo saiu, partindo a própria casa. Namutu e Samutu, os dois gêmeos de sexo diferente, pais dos homens do país lunda, da serpente diretamente saíram. (PEPETELA,1998, p.9).
Maria Celestina Fernandes ..em A Arvore.. do Jingongo diz “Os pais dos gingongos festejaram o nascimento dos gêmeos, seguindo os costumes da sua gente: "Houve bater de latas no musseque para anunciar a boa nova/ Papá Policarpo chamou seus velhos companheiros de rebita e dançaram pela noite fora. Comida e bebida não faltou" (FERNANDES, 1993, pp. 23-24). A seu tempo, prepararam a "mesa dos gingongos", banquete oferecido aos gêmeos do qual participam outros gêmeos. Na ocasião, os homenageados e os outros gêmeos convidados, todos eles, "lamberam o mel e o óleo de palma para afastar os maus espíritos" (FERNANDES, 1993: 24). De acordo com Óscar Ribas, os alimentos sagrados dos gêmeos são "o mel e o azeite de palma, e sua roupagem, as folhas de mussêquenha e mulembuíji" (RIBAS, O.1989: 137).
Óscar Ribas, escritor e etnólogo angolano, dedicado às pesquisas folclóricas e religiosas angolanas, descreve ritos associados à vida e morte de gêmeos em seu livro Ilundu - espíritos e ritos angolanos. Conta que "os gêmeos, considerados seres sobrenaturais - ituta -, inspiram um culto especial. Entre si, constituem uma irmandade, possuindo cada qual um poder espiritual sobre o congênere" (RIBAS, O.,1989: 137). E que:
Dada a sua especial procedência, todos os atos importantes de sua existência, desde o nascimento à morte, obedecem a um sistema de práticas rituais. Dotados de extraordinária sensibilidade, facilmente se contrariando com o que lhes não agrada, exigem cuidados prontamente satisfeitos. Não apenas a um, mas a ambos ou ao conjunto da mesma gestação (RIBAS, O.,1989: 137).
Conforme Virgílio Coelho em aula ministrada na Faculdade de Letras da UFRJ em 2001, segundo o mito quimbundo, Nzambi criou Samba e Máwèze, o casal primordial que deu origem a inúmeros filhos, dentre eles os primeiros habitantes de Angola: Mpèmba e Ndèle.
A árvore como objeto do desejo dos gingongos remete à Kyàndà. Ruy Duarte de Carvalho revela que a Kyàndà, "embora deusa do mar, também pode estar na terra" (CARVALHO, R.D,1989: 286-287) e que o "imbondeiro é sua árvore predileta" (CARVALHO, R.D.,1989: 286-287). Virgílio Coelho diz que a Kyàndà "pode ser representada por um imbondeiro, ou por um outro elemento da natureza ( apud: SECCO, 2002: 19). Óscar Ribas associa os gêmeos diretamente ao imbondeiro: "o imbondeiro é a sua árvore sagrada. Tal o simbolismo dos vegetais, que, se uma árvore existente numa casa chorar, a mulher grávida que, porventura, lá viver, dará gêmeos à luz" (RIBAS, Ó., 1989: 137).
Américo Correia de Oliveira, no livro A Criança na Literatura Tradicional Angolana, relata que os gêmeos, na sociedade tradicional ambunda , propriamente dita, designadamente na "área" de Luanda, são objeto de estudo por parte de Borges Canto, Ana Sousa Santos e, por último, Óscar Ribas. Sobre Borges Canto, diz que ele considera que nos "Miseke" de Luanda, os "gêmeos são bem-vindos, tratados com toda a deferência, e o seu nascimento é encarado como sinal de sorte, embora sejam temidos devido a serem potencialmente malignos. [...] Acreditam que os gêmeos, espiritualmente, podem ser provenientes de sereias, ou, então, dos seus antepassados". No caso da sereia simpatizar com um dos cônjuges que "passa junto à pousada de uma sereia, esta pode entranhar-se nele", dando origem a gêmeos; se tal não acontece, a "mulher conceberá um filho, em geral deformado (kituta), ou um animal (kituta). Os sinais de futuros gêmeos são transmitidos à mãe pelo"gemer da árvore" ou "sonhos". A morte dos gêmeos é interpretada como "tendo havido desinteligência entre eles, ou, então, tendo um deles mandado o outro embora". (OLIVEIRA, 2000: 171)
Américo de Oliveira relata que Ana de S. Santos, em seus estudos, considera que
"embora não constitua parto anormal, o nascimento de gêmeos pela natureza sobrenatural que lhes atribuem, reveste-se de tal complicação cerimonial que se coloca num plano de parto particular". Assim, quando do seu nascimento, participa-se a todas as mães de gêmeos e crianças gêmeas que vão à mata buscar determinadas plantas para festejarem com cânticos. A autora afirma que os gêmeos são considerados "ituta-gênios" (seres sobrenaturais), e alguns destes gênios são encontrados na água: "mu menya"; nos morros: "mu milundu"; nas bananeiras e palmeiras; e ainda nos matos: "mu mixitu". (OLIVEIRA, 2000: pp. 171-172)
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Tradução livre e adaptada po Tata Jitu Mungongo
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Comentários:
Venho já a alguns anos pesquisando os mistérios do Jingongo não somente pelo religiosidade que sigo pelos 33 anos, mas por ter estes mistério me rondando há 26 anos que diga-se de passagem sempre se perdurou pelo lado da adoração e felicidade, que são 2 filhas lindas e maravilhosas que possuo. Rogo aos irmão que colaborem, citem, comentem, critiquem, endossem e aumentem com mais informações, pois assim poderemos esclarecer esses mistérios que rondam os Bantos de lá e foge em muito aos Bantos daqui.